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Gracias a la vida

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“Não venci todas as vezes em que lutei. Mas perdi todas as vezes em que deixei de lutar”.

Li, nesse fim de semana, o livro de memórias do Cid Benjamin: “Gracias a la vida: memorias de um militante”. Minha parte preferida foi aquela sobre a sua experiência na resistência à ditadura, não só pelo relato fascinante (de um militante que atuou no movimento estudantil e na luta armada), mas também pelas reflexões sobre as leituras políticas e estratégias de luta da esquerda, entre outros temas (a tortura, o exílio…). Cid conta também algo de sua experiência no PT, de que foi fundador e militante durante muitos anos (veio para o PSOL em 2005).

Tenho acordo com a maior parte de suas opiniões (embora não com todas, óbvio, e até tenho divergência forte com pelo menos uma das manifestadas no livro). Mesmo que não fosse o caso, ler suas memórias de qualquer forma me traria uma injeção de ânimo militante e busca de lucidez política. Com menos de 20 anos de idade, Cid doou-se radicalmente à luta contra a opressão. Nos seus anos de juventude, ao longo de mais de uma década, viveu a clandestinidade, a prisão, a tortura e o exílio. Que mesmo assim afirme que valeu a pena já seria muito estimulante para nós, militantes pela transformação social.

Além disso, ele faz qualificada autocrítica da estratégia da luta armada, naquela conjuntura (sem condená-la com moralidade hipócrita; pelo contrário, reafirmando a dignidade da luta), o que é também extremamente motivador. Afinal, um vício de alguns setores da esquerda que me incomoda muito é a dificuldade de autocrítica radical, não simplesmente por arrogância, orgulho ou desonestidade intelectual, mas também, muitas vezes, por se supor que a a autocrítica nos desarmaria para a luta, porque afetaria o nosso moral, a disposição para seguir lutando, ou ainda a nossa credibilidade pública. Tenho a convicção de que é o oposto: a atitude permanente de autocrítica, além de essencialmente nos munir com as armas da lucidez, aumenta nossa credibilidade, por demonstrar espírito de reflexão sincera e profunda, de humildade, de abertura para o aprendizado. E mais: a autocrítica pode até dar a impressão de desmobilizar em alguns momentos, mas tenho plena convicção de que a autoproclamação cega desmobiliza muito mais no longo prazo, ainda que de imediato não o pareça. As pessoas em geral não aguentam permanecer numa militância alimentada por autoilusões… E quem está fora também o percebe, e permite-se menos ainda iludir-se com tal tipo de referente político.

Talvez em sua capacidade de autocrítica radical (mas jamais “arrependida” em tom resignado) resida uma das chaves para compreender por que, diferente de tantos outros com passados igualmente heroicos, Cid não tenha capitulado da luta socialista, por democratizar radicalmente a sociedade brasileira.

Pra quem quiser comprar o livro: http://livraria.folha.com.br/livros/biografias-e-memorias/gracias-la-vida-cid-benjamin-1215577.html

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