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Vladimir Safatle: o esgotamento da forma partido e o desafio da criação de novas formas de governo*

Na sua aula na Ocupa Sampa ou Acampa Sampa, o filósofo Vladimir Safatle repetiu alguns pontos de vista importantes que expôs no debate roda-viva que o B&D realizou com ele na UnB faz alguns meses. Em especial, suas ideias sobre o esgotamento da forma partido para fomentar grandes rupturas e tornar o Estado verdadeiramente poroso à participação popular, e o desafio posto à esquerda de desenvolver formas alternativas de governo: “Mais do que de uma teoria do poder, hoje nós precisamos de uma espécie de teoria do governo. Precisamos mostrar que é possível governar de outra forma. Pensar gestão dos problemas de outra maneira. Quando nós conseguirmos fazer isso, nada mais vai conseguir nos parar.  E isso não vai ser dado através da forma partido.

Dito de outra forma, numa linguagem que o B&D usa bastante desde a sua fundação (e que Safatle também usou, no debate conosco), a esquerda tem diante de si, mais do que nunca, o desafio das inovações institucionais. A tríade sindicato, partido e governo social-democrata mostra-se cada vez mais insuficiente para a promoção de novos avanços. Traduzir em programas, ações e organizações alternativas os anseios e princípios levantados pelas mobilizações democráticas que têm pipocado pelo mundo é o grande desafio. Vladimir Safatle nos convoca a imaginar para revolucionar.

PS: a partir do diálogo com o amigo e companheiro de lutas Daniel Garcia Dias, parece-me importante acrescentar o seguinte. No encontro com o B&D, Safatle criticou a ideia de “mudar o mundo sem tomar o poder” (há um livro com esse nome, de John Holloway), e se referiu positivamente a experiências de esquerda na América Latina (Bolívia, por exemplo) que vêm mostrando a importância da conquista do poder do Estado (embora não só dele). Precisamos, sim, conquistar o poder, ocorre que Safatle avalia que precisamos também de uma teoria do governo, que aponte inovações institucionais capazes de traduzir nosso ideário em práticas. Ademais, penso que precisamos entender melhor a crítica dele à “forma partido”, que pra mim ainda não está clara: quais aspectos ele avalia que estão superados e precisam ser reinventados? Esse foi o grande ponto da parte final do nosso debate com ele: quais aspectos dos partidos e sindicatos tradicionais estão superados, quais características as novas organizações políticas de que precisamos (ainda que possamos seguir chamando-as de partidos) devem ter?

PS2: Safatle falou sobre inúmeras outras questões interessantíssimas na sua aula. Vejam abaixo os vídeos das partes 2 e 3 da aula. Destaco, no vídeo 2, o trecho que vai do minuto 25 ao 33, em que ele trata da ideia da “democracia por vir” (formulada inicialmente por Derrida), apresentando uma reflexão sobre a legitimidade da ação política contestatória à margem das leis e instituições vigentes.

*Originalmente publicado no blog do Grupo Brasil e Desenvolvimento.

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  1. João,

    Eu poderia dizer que a forma-partido está esgotada há tempos, mas seria impreciso: ela própria é um esgotamento. E o é porque não passa de um tentáculo da forma-Estado – embora eu prefira dizer função-partido e função-Estado.

    Quando as velhas organizações socialistas resolveram se organizar como partidos no século 19º, elas tinham mais clareza disso do que hoje: ali, elas sabiam que seu papel era subir ao palco da democracia representativa dos burgueses para, uma vez sob a luz, denunciar a farsa e romper com a distância entre – e o significado de – palco e plateia.

    Com o tempo se perdeu isso, inclusive quando o sistema passou a captura-los. Podemos enumerar inúmeros teóricos dessa acomodação, embora talvez Kautsky seja o maior deles.

    Agora, honestamente, não creio que precisemos de uma teoria de governo. Estado, governo, partidos são isso daí mesmo. Podemos deixar de fora os partidos, mas dentro de uma perspectiva conservadora onde teríamos a atuação direta da sociedade no Estado…bem não faria tanta diferença assim.

    A busca, ao meu pensar, é como criar uma práxis suficiente para, de uma atuação concreta usando os mecanismos que temos à disposição, subverter o funcionamento da máquina sem sermos absorvidos por ela. Fácil dizer, difícil fazer. Uma teoria do governo, no entanto, não me parece o caminho – ou é, para terminarmos absorvidos novamente.

    abraços
    Hugo

    Responder
    • João Telésforo Medeiros Filho

      Hugo, concordo que precisamos “subverter o funcionamento da máquina sem sermos absorvidos por ela”. Porém, creio que disputar posições de poder do Estado – para subvertê-las, sim – continua sendo importante, sim. Disputar eleições, conquistar o poder do Estado continua sendo, na minha opinião, uma frente estratégica muito importante da disputa, desde que se tenha ciência também de suas limitações e de que o papel daquilo ali é apoiar – ou ao menos deixar de bloquear tanto – as mudanças que vêm “desde baixo”, que acontecem por força de dinâmicas sociais subversivas e criativas de formas alternativas de sociabilidade. Eu chamaria isso, sim, de uma “teoria do governo”. Se você concorda que disputar os governos continua sendo importante (e tenho a impressão de que concorda, afinal não anulou nenhum voto ano passado), então precisamos ter uma teoria do papel desse governo, de como deve ser exercido, do eixo de inovações de que precisa, de quais inovações instituiconais são prioritárias para que o governo cumpra esse papel, etc. Tenho a impressão de que é a isso que Safatle se refere quando fala de “teoria do governo”.

      Responder

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