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Gracias a la vida

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“Não venci todas as vezes em que lutei. Mas perdi todas as vezes em que deixei de lutar”.

Li, nesse fim de semana, o livro de memórias do Cid Benjamin: “Gracias a la vida: memorias de um militante”. Minha parte preferida foi aquela sobre a sua experiência na resistência à ditadura, não só pelo relato fascinante (de um militante que atuou no movimento estudantil e na luta armada), mas também pelas reflexões sobre as leituras políticas e estratégias de luta da esquerda, entre outros temas (a tortura, o exílio…). Cid conta também algo de sua experiência no PT, de que foi fundador e militante durante muitos anos (veio para o PSOL em 2005).

Tenho acordo com a maior parte de suas opiniões (embora não com todas, óbvio, e até tenho divergência forte com pelo menos uma das manifestadas no livro). Mesmo que não fosse o caso, ler suas memórias de qualquer forma me traria uma injeção de ânimo militante e busca de lucidez política. Com menos de 20 anos de idade, Cid doou-se radicalmente à luta contra a opressão. Nos seus anos de juventude, ao longo de mais de uma década, viveu a clandestinidade, a prisão, a tortura e o exílio. Que mesmo assim afirme que valeu a pena já seria muito estimulante para nós, militantes pela transformação social.

Além disso, ele faz qualificada autocrítica da estratégia da luta armada, naquela conjuntura (sem condená-la com moralidade hipócrita; pelo contrário, reafirmando a dignidade da luta), o que é também extremamente motivador. Afinal, um vício de alguns setores da esquerda que me incomoda muito é a dificuldade de autocrítica radical, não simplesmente por arrogância, orgulho ou desonestidade intelectual, mas também, muitas vezes, por se supor que a a autocrítica nos desarmaria para a luta, porque afetaria o nosso moral, a disposição para seguir lutando, ou ainda a nossa credibilidade pública. Tenho a convicção de que é o oposto: a atitude permanente de autocrítica, além de essencialmente nos munir com as armas da lucidez, aumenta nossa credibilidade, por demonstrar espírito de reflexão sincera e profunda, de humildade, de abertura para o aprendizado. E mais: a autocrítica pode até dar a impressão de desmobilizar em alguns momentos, mas tenho plena convicção de que a autoproclamação cega desmobiliza muito mais no longo prazo, ainda que de imediato não o pareça. As pessoas em geral não aguentam permanecer numa militância alimentada por autoilusões… E quem está fora também o percebe, e permite-se menos ainda iludir-se com tal tipo de referente político.

Talvez em sua capacidade de autocrítica radical (mas jamais “arrependida” em tom resignado) resida uma das chaves para compreender por que, diferente de tantos outros com passados igualmente heroicos, Cid não tenha capitulado da luta socialista, por democratizar radicalmente a sociedade brasileira.

Pra quem quiser comprar o livro: http://livraria.folha.com.br/livros/biografias-e-memorias/gracias-la-vida-cid-benjamin-1215577.html

Votar 13 para derrotar o antipetismo antidemocrático e escolher o cenário em que lutaremos

Tenho duas principais razões para votar em Dilma amanhã. A primeira é subjetiva: uma parcela do sentimento antipetista enxerga o PT como grande inimigo por associá-lo ao processo de inclusão democrática de pobres, mulheres, quilombolas, índios, gays e lésbicas, enfim, a “tudo o que não presta”, nas palavras do líder ruralista Heinze (PP-RS), apoiador de Aécio Neves. Nas versões mais delirantes, o antipetismo chega a assumir tonalidades explícitas de anticomunismo (!).

Evidente que o PT não tem caráter socialista nem comunista, e seu governo de coalizão muito menos. É claro, também, que a inclusão promovida pelos 12 anos de governo petista foi muito limitada, tímida (recomendo ver pesquisas de Marcelo Medeiros que mostram que a desigualdade social manteve-se estável no Brasil de 2006 a 2012), e não é difícil ver que em várias dimensões ultrapassou a linha do “limitado” ou “recuado” para chegar à de adversário de segmentos sociais historicamente oprimidos – a questão indígena talvez seja a que expresse com mais nitidez o quanto o modelo petista de gestão do capital não significa uma alternativa “humanizadora”, mas também destrutiva social e ambientalmente. Outro exemplo claro é como segue crescendo a militarização da segurança pública e da vida – e Dilma falou com orgulho, no debate de ontem, mais uma vez, da ocupação da favela da Maré, no RJ, pelo Exército.

Então, é verdade que esse sentimento antipetista reacionário enxerga no PT algo que em certa medida ele nunca foi (comunista), e em grande medida ele deixou de ser (veículo para emancipação política do conjunto dos setores marginalizados da nossa população). Porém, mesmo assim, é um sentimento, um afeto político, muito perigoso, cujo fortalecimento representa um risco não simplesmente ao PT e ao conjunto da esquerda e das lutas libertárias (que esse setor coloca no mesmo balaio), mas do fortalecimento da nossa democracia. Derrotar essa política do ódio à alteridade, à participação política plural, à diversidade humana e à igualdade social já seriam razões suficientes e necessárias, na minha opinião, para votar em Dilma (pois, por mais que ela tenha se aliado a segmentos sociais e políticos que pensam com essa cabeça, não é esse o sentimento de seu eleitorado, nem que sua campanha fomenta, nem que se fortalecerá pela sua vitória). [Importante ressaltar, por fim: nem todo antipetista é reacionário, há outras modalidades. Mas o sentimento antipetista reacionário é expressivo e precisa ser derrotado mais uma vez].

A segunda razão para votar em Dilma é objetiva: seu governo terá mais condições de viabilizar condições materiais minimamente menos desfavoráveis à luta por emancipação social do que o do PSDB. Como já disse, o projeto petista de gestão do capital também gera tragédia social e ambiental, e além disso também tem apostado não só na desmobilização e cooptação, mas ainda, em especial nos últimos anos, na repressão direta à mobilização e organização popular. Porém, fazem diferença políticas como o aumento real do salário-mínimo e o forte compromisso de que o governo não vai apostar em desemprego e achatamento de salários, enfim, em aviltamento ainda maior das condições de vida da maioria da população brasileira, como suposta saída da crise. Isso faz diferença ainda maior quando, do outro lado, o que vemos é Armínio Fraga, com o mesmo discurso da década de 1990… Em cenário de crise sistêmica e global do capitalismo, o governo de Dilma sofrerá fortes pressões para tomar novas medidas draconianas contra os/as trabalhadores/as, mas avalio que as condições para resistir a essas medidas serão melhores com ela do que com o PSDB – comparando histórico, base social, compromissos de campanha, etc.

Então, meu voto para a Presidência é um voto convicto. Respeito muito quem vota nulo e está na luta diária junto aos movimentos sociais, ou pelo menos apoiando-os. E é aí que seguirei, empenhado em construir um campo político capaz de se apresentar como alternativa para superar não simplesmente o PT, mas a hegemonia, em nosso sistema político, organização econômica e convivência social, do capitalismo predatório, dependente, colonial, racista, machista, homofóbico, opressor.

João Telésforo, militante do PSOL e da Esquerda Libertária Anticapitalista – ELA

No meio do rolê tinha Pedrinhas*

Depois de passarmos o início do ano horrorizadas com as imagens do presídio de Pedrinhas, no Maranhão, começamos na última semana a nos empolgar com os rolezinhos. E é muito interessante que a atenção nacional tenha se voltado a esses dois acontecimentos sucessivamente. Mais interessante ainda, contudo, é que eles não tenham sido evidentemente relacionados em nossas reflexões.

Apesar de as atrocidades ocorridas na penitenciária do Maranhão – que não são particularmente mais violentas que aquelas cometidas contra os outros 550 mil presos pelo país – terem sensibilizado bastante, não se questiona o que a produziu. Recorre-se ao expediente de se despejar toda a culpa na família Sarney. Obviamente, essa e outras velhas oligarquias há décadas ou mesmo séculos encalacradas nos Poderes do Estado têm grande dose de responsabilidade por tragédias como a de Pedrinhas. Porém, o antagonismo muitas vezes implícito entre um Brasil “moderno” e um “arcaico” é plenamente insuficiente para compreender nossas prisões.

A população carcerária brasileira multiplicou-se por seis de 1990 a 2012, período da nossa história comemorado por vários setores como de “modernização”. As nossas prisões talvez sejam o maior retrato de que permanece em voga a modernização conservadora e seletiva, nas palavras do sociólogo Jessé Souza: incapaz de desestruturar velhos mecanismos de exclusão e opressão, bem como as ideologias que o naturalizam.

O presídio é este símbolo de depósito de tudo o que há de errado no mundo. Queremos jogar lá quem trafica, estupra, mata, rouba, bate em mulher, pratica racismo e homofobia. Seguimos confiando na prisão para lidar com os inimigos que elegemos. O grande problema é que o sistema punitivo só tem um inimigo: os pobres da periferia, especialmente os jovens e negros. Ou seja, a galera dos rolezinhos.

Os rolezinhos, queiram-no ou não, desafiam a naturalização da desigualdade social e racial que está na raiz do caso Pedrinhas. Confrontam o apartheid entre lugares de gente rica, branca e “diferenciada”, e os reservados para a “ralé” pobre e negra, confinada em espaços de circulação restrita, de que a cadeia é o exemplo mais berrante.

Se nos entusiasmamos tanto com os rolezinhos da juventude da periferia, se entendemos as suas demandas como válidas, precisamos problematizar as apostas políticas no direito penal. Ver os presídios como depósitos de bandidos, marginais, monstros, enfim, de todos com quem não queremos conviver, é aceitar o discurso que desumaniza aquele(a)s atrás das grades. É ignorar que o direito penal é a principal forma de controle de grupos subalternos e a sustentação legal para a ação violenta das polícias: ao fim e ao cabo, não importa quantos novos crimes sejam criados, quem vai acabar preso são os jovens pobres e negros. E pelos mesmos crimes de sempre: tráfico de pequena quantidade de droga (a mesma quantidade que seria considerada consumo para o playboy), furtos sem violência e brigas de rua.

É preciso rechaçar a prisão e pensar novas formas de responsabilização. Fundamental propor instrumentos que se afastem do encarceramento sustentado por um direito penal meramente simbólico para as elites, mas muito concreto para a galera do rolê.

Os brados humanitários por condições “mais dignas” nos presídios, que mais uma vez vêm à tona com a situação do Maranhão, muitas vezes são apenas a manifestação de má consciência de quem não abre mão de aparatos de opressão em massa. A real potência de destruir as Pedrinhas do meio do caminho está na proliferação de rolezinhosPinheirinhos e tantos outros atos coletivos de insubordinação subalterna.

*Texto publicado na Carta Maior, em co-autoria com Mayra Cotta.

É preciso libertar Nelson Mandela

AO LONGO DE DÉCADAS, Nelson Mandela liderou um movimento de combate ao Apartheid racial da África do Sul por meio de diversos métodos, com destaque para os de ação direta, como greves, manifestações de massas e, inclusive, para se contrapor à violência sistemática do governo, resistência armada. Madiba participou da fundação do braço guerrilheiro do Congresso Nacional Africano (CNA), o “Umkhonto we Sizwe” (Lança da Nação). Preso por 27 anos, recusou-se a aceitar a “liberdade” em troca da rejeição incondicional da violência como instrumento de luta política. Enquanto o governo prosseguisse reprimindo violentamente a população negra, não poderia aceitar tal condição. A luta de Madiba e de milhões de sul-africano(a)s, afinal, era por sua libertação coletiva, e não simplesmente pela liberdade de lideranças individuais.

Não por acaso, Mandela permaneceu como preso político por tanto tempo. Não por acaso, Margaret Thatcher, a poderosa Primeira-Ministra Britânica, amiga e aliada de ditadores como Augusto Pinochet e ícone do neoliberalismo, não apenas recusava-se a impor sanções contra o regime do Apartheid, mas declarou, em 1987, que o CNA (partido de Mandela) era “uma típica organização terrorista”. Parlamentares do partido conservador da “Dama de Ferro” chegaram a pedir publicamente pela morte do líder da resistência ao Apartheid, na mesma época. Um ano antes, em 1986, o Partido Republicano de Ronald Reagan, nos EUA, votara contra uma resolução para reconhecer o CNA como partido político e apelar ao governo para libertar Nelson Mandela. O líder da luta contra o regime de segregação racial só saiu da lista de terroristas do governo norte-americano em 2008.

.Esse Mandela, o radical, é o que faço questão de lembrar, hoje, em tempos nos quais, no Brasil, a luta coletiva por direitos ganha cada vez mais corações, mentes, pés e braços; em tempos nos quais um morador de rua, Rafael Vieira, é condenado à prisão por porte de pinho sol em manifestação; tempos nos quais uma gari, Cleonice Vieira de Moraes, morre em Belém do Pará, em junho, como uma das vítimas do gás lacrimogêneo jogado aos montes pela PM contra manifestantes; tempos nos quais partidos governistas e da oposição conservadora mobilizam-se para aprovar, no Congresso, uma lei que cria o tipo penal de “TERRORISMO CONTRA COISA“  e agrava penas de “incitação ao terrorismo” (contra coisa?) quando cometidas pela internet…

Quem quer mudar o mundo, quem quer resistir a esta ordem injusta na qual vivemos, precisa estar pronta para ser chamada de terrorista, ainda que seja o oposto disso. Deve preparar-se para ser marginalizada e seguir em luta contra todas as formas de marginalização. Mandela e a vitoriosa luta coletiva contra o Apartheid na África do Sul nos ensinam: “não é da docilidade dos poderosos, mas dos ardores irredutíveis da insubmissão” (como dizia García Linera, outro ex-guerrilheiro e preso político), que nascem os direitos, a liberdade igualitária, a dignidade.

O que temos a aprender com o Mandela conciliador, bem comportado, muitas vezes o único mostrado e incensado pelos discursos oficiais e grande mídia? A estratégia da conciliação com o capitalismo tem sido capaz de aprofundar as conquistas democráticas e em oposição ao racismo, às desigualdades sociais e ao neocolonialismo na África do Sul e no continente africano? Parece-me que não. Não entro nesta discussão agora, porém.

Tampouco interessa-me idealizar acriticamente o Mandela guerrilheiro, ou o movimento armado de que participou. Certamente, ele acertou e errou em diversas medidas em vários momentos, e devemos aprender com suas vitórias e fracassos – não como indivíduo quase beatificado, mas como alguém profundamente comprometido com a ação política coletiva.

É preciso promover a libertação póstuma de Nelson Mandela. Agora, da falsa imagem que têm buscado construir para ele nas últimas décadas e mais ainda na hora de sua morte, enquadrando-o como representante máximo de impotentes exortações morais de combate bem comportado, disciplinado e conciliador ao racismo. Não podemos deixar que se oculte e silencie a memória do Madiba insurgente, militante político da luta coletiva contra o racismo entranhado na colonialidade capitalista.

*Texto originalmente postado no blog do B&D, no dia 5 de dezembro de 2013.

História, memória, cidade… e ENEM

Luiz Antônio Simas, professor de História, publicou faz alguns dias um artigo chamando a atenção para a necessidade de “reconhecimento da cidade, pela própria população e pelos homens do poder, como um espaço acumulado de experiências que não podem simplesmente ser descartadas em nome da transformação do Rio de Janeiro em um balneário modernoso de grandes eventos”.

Podemos desdobrar em vários sentidos suas ricas reflexões. Veja-se, por exemplo, sua critica ao fato de que na escola estudamos mais a história das cidades europeias do que a daquelas onde vivemos: “Não se ensina, nas escolas do Rio de Janeiro, a história da cidade, dos seus bairros e ruas, como matéria sistemática do aprendizado. Fala-se mais, para um menino carioca de um colégio do centro, do Palácio de Versalhes do que do Palácio Monroe. Uma menina da quinta série do ensino fundamental aprende sobre as ágoras gregas e sequer escuta falar sobre a Praça Onze, ágora carioca e um dos berços da peculiaridade da nossa experiência civilizacional. Querem que um garoto do Morro da Providência aprenda que a Grécia foi o berço da filosofia ocidental (é ótimo que ele aprenda isso), mas esquecem de dizer ao moleque que a Pedra do Sal, pertinho de onde ele mora, moldou os batuques cariocas dos primeiros sambas. Sem o conhecimento, impera o descaso“.

Esse é um claro mecanismo de alienação, de impedimento à formação da consciência sobre as cidades em que vivemos como fruto de produção histórica, sobre os mecanismos sociais, políticos, econômicos, culturais dessa construção… Esse conhecimento poderia empoderar a luta pelo direito à cidade, isto é, por ser sujeito criativo de sua história, em condições de igualdade e liberdade.

A partir daí, proponho a seguinte reflexão: o uso de um Exame Nacional, como o ENEM, para fazer seleção para ingresso nas universidades, não tenderia a agravar esse quadro? Sabemos que a(s) prova(s) de seleção nas universidades exercem enorme influência nos conteúdos  ensinados nas escolas, em especial no Ensino Médio. Lembro-me do meu próprio caso: estudei muito pouco, na escola, de História e Geografia do Rio Grande do Norte (o estado onde nasci e morava). E esse pouco foi devido ao fato de que esses conteúdos eram cobrados nos vestibulares locais, em especial no da UFRN… Se não “caísse” no vestibular, com certeza seriam ainda menos trabalhados pela minha escola.

Há vários outros aspectos a serem considerados sobre o ENEM, vestibular e outras formas de seleção na educação superior. Porém, essa questão torna problemático, pelo menos, utilizar o ENEM como método único ou principal de seleção nas universidades, em especial das públicas. Se é para selecionar por meio de uma prova, que ela contemple questões da história e da geografia de cada estado de modo significativo e multidisciplinar.

PS: Lembrei-me desta cena da série “Cidade dos homens” (em especial a partir dos 6 min):
*Texto postado originalmente no blog do B&D.

A violência das ruas e os Inocentes da Esquerda Leblon

“Eu tô vendo um monte de gente incomodado com o quebra-quebra na Toulon. Sei que é polêmico o que eu vou dizer, mas eu, como ex-vendedora de loja, que trabalhava de 12/14h por dia em dias de grande movimento, sem ganhar hora extra, sem salário fixo, sem descanso no fds, tendo que chegar cedo pra limpar loja, tendo a bolsa e o corpo revistado ao sair, obrigada a bater meta, sob ameaça de ser mandada embora constantemente se não fosse rentável, tradada como produto da loja, obrigada a estar impecável, com as unhas e cabelos feitos no padrão da empresa (nada mais violentador pra mim do que ouvir que eu era um produto tb), vou ser bem franca, se eu trabalhasse ali EU ADORARIA VER A LOJA ARDER. 

Acho que eu acordava às 6h da manhã sonhando com isso todos os dias enquanto eu trabalhava em loja. 

Imagino que muitos vendedores de loja de Ipanema hj acordaram pensando “Droga! Pq não foi a minha loja!

Esse depoimento foi dado por uma ex-funcionária da Toulon, sobre sua alegria ao saber da destruição da loja de luxo do Leblon (bairro grã-fino do Rio de Janeiro) no contexto de manifestações em meados de julho. Ela não o divulgou anonimamente: postou-o no seu perfil pessoal no Facebook, com a coragem de expôr seu nome para deixar bem claro que se trata de um relato e de um sentimento real, de uma trabalhadora de carne e osso, e não algum tipo de invenção publicitária.

Quem seria de fato violento? O Estado e as empresas, que exploram, aviltam, oprimem, degradam, geram infelicidade, matam cotidianamente… Ou quem se rebela atacando símbolos e patrimônios (e não pessoas) desse sistema destrutivo de acumulação de capital, competição e consumismo, dominação econômica e cultural, coisificação do ser humano e mercantilização da vida?

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Poucos dias antes do “vandalismo” contra lojas do Leblon, dez pessoas foram assassinadas durante operação policial na favela da Maré, também no Rio. Adivinhe qual desses fatos foi mais repercutido e criticado pela mídia…

Mais importante do que julgar os atos de destruição de lojas de luxo, agências de banco, concessionárias de automóveis, etc, é tentar compreendê-los. A esquerda radical é aquela que busca as raízes dos problemas para nelas encontrar as possibilidades de sua superação, ao invés de atacá-los apenas em sua superfície evidente (e por vezes enganosa).

Claro, em alguma medida a sanha destrutiva da turba parece ter sido insuflada por policiais infiltrados (com a cumplicidade dos governos, para dizer o mínimo), interessados em acirrar o conflito para tentar justificar a violência brutal da repressão (que inúmeras vezes foi detonada contra massas pacíficas). Porém, também parece bem claro que não foi o único detonador dessas ações.

Ao depoimento da funcionária da Toulon poderiam se somar inúmeros outros, sem dúvida alguma: de ira contra o escancarado caráter explorador do sistema econômico (que se expressou pela depredação aos bancos); de raiva gerada pela frustração com a má qualidade de vida, objetificação e falta de (auto)reconhecimento e prestígio social produzidos pela sociedade competitiva e de consumo burocratizado (representada pelos ataques a lojas de luxo e concessionárias de automóveis); de revolta contra a violência policial sistematicamente utilizada pelo Estado contra a periferia, as mulheres, os povos indígenas, a juventude negra, a população LGBT ou contra a participação política contestadora.

É inegável que toda essa raiva social acumulada contra as instituições vigentes – que se expressou também no rechaço à mídia hegemônica e a partidos – teve papel fundamental em gerar os atos de “vandalismo”.

Precisamos abandonar a postura da esquerda moralista e da esquerda arrogante, que se combinam na preocupação em condenar essas ações espontâneas das massas, mais do que em tentar elaborar alternativas para que seu instinto destrutivo da ordem vigente possa ser canalizado para a transformação social em perspectiva emancipatória.

Maquiavel, nos Discorsi, já dizia que é preciso criar meios para que os conflitos se expressem na ágora e nas instituições – caso contrário, explodirão incontrolavelmente contra elas. É exatamente isso o que temos presenciado nas últimas semanas. A revolta contra as violências sistêmicas cotidianas não têm conseguido se expressar plenamente nem se organizar politicamente ante: (i) o fechamento e a falência das instituições; (ii) a burocratização e conversão à ordem de parte da esquerda; e (iii) a desorganização, desorientação estratégica e déficit criativo nosso, das organizações e movimentos da esquerda combativa. Em consequência, alguns setores só conseguem enxergar a violência espontânea e a revolta “contra tudo e contra todos” como a única saída para suas angústias e desejo de rebelião.

Compreender esses três fatores deve nos levar a reconstruir a estratégia de transformação social, em meio à sua práxis.

Nós, que rejeitamos radicalmente as injustiças do sistema social existente e sonhamos com uma sociedade organizada sobre bases culturais, econômicas e políticas livres e igualitárias, devemos celebrar a rejeição às instituições, bem como os sintomas e possibilidades de libertação subjetiva contidas no combate a símbolos do status quo. Obviamente, é precisamente aí, nesses momentos de crises, que florescem as maiores possibilidades de edificar novas instituições, sob viés emancipatório.

Nós, que há anos tentamos – sem muito sucesso, é necessário admitir – construir alternativas políticas capazes de não recair nos erros do ciclo histórico do petismo (a burocratização, a conciliação pelo alto, a prioridade conferida à disputa de cargos nas instituições como método principal ou até único de acúmulo de forças para a transformação), devemos comemorar o fato de que cresce a rejeição aos partidos da ordem. Assistimos agora a uma desilusão das expectativas socialmente depositadas no “projeto democrático-popular” (do PT, PCdoB, PSB e adjacências) e sua ênfase na ideia de que poder popular se constrói essencialmente pelo frenesi de vencer eleições – a qualquer custo, cada vez mais – e ocupar cargos institucionais.

É verdade que essa frustração e “ressaca” contamina também partidos que permanecem combativos e que jamais se alinharam à estratégia de priorizar as disputas eleitorais (em detrimento das lutas sociais). Porém, vejo mais a comemorar do que a lamentar aí. Trata-se de astúcia histórica do povo, aprendizado da sofrida memória das lutas e das desilusões com os caminhos institucionais. Mesmo para quem – como eu – julga que a esquerda não deve abrir mão de fazer também a disputa eleitoral, é preciso reconhecer que esta deve ser secundarizada. O caminho político para a transformação social deve ser construído sobretudo nas ruas! E não se pode desprezar a gigantesca importância de que amplos setores venham manifestando – por sua prática – acordo com isso. (Sobre esse ponto, leia a concepção de poder popular do B&D).

Por fim, não é apenas pelo rechaço ao sistema, às instituições e à estratégia eleitoralista que cresce a rejeição aos partidos (inclusive aos da esquerda que não abriu mão de seus princípios e projeto estratégico). É também porque boa parte da esquerda combativa não tem sabido sair do gueto, dialogar com os “não-convencidos”, disputar o senso comum e oferecer alternativas de organização com a cara da indignação das ruas.

Para superar essa situação, precisamos, sim, de novas formas de organização e novas linguagens. O desafio, porém, é muito maior. A esquerda precisa ir mais fundo, e repensar o conteúdo estratégico de seu projeto, sendo capaz de responder de forma dinâmica e programática aos grandes e novos desafios contemporâneos, adaptar-se a novas formas de cognição, comunicação e condições produtivas e culturais, e superar diversos vícios e equívocos que carrega em sua prática (sectarismo, vanguardismo, propagandismo…), evitando recair em outros (espontaneísmo, incapacidade de articular bloco contra-hegemônico de lutas…).

Os inocentes da “esquerda Leblon”, porém, já nos lembrava Drummond, preferem ignorar a realidade. Confortam-se em condenar aqueles e aquelas que fogem à verdade dos iluminados ou agem em desacordo com seu mantra. “Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram, mas a areia é quente, e há um óleo suave que eles passam nas costas, e esquecem.” O óleo suave, no caso, são velhos dogmas de algumas organizações.

Quanto a nós, estamos presos à realidade, ao tempo presente, ao mundo presente. Em vez de sucumbir ao niilismo nostálgico ou às vãs esperanças depositadas num futuro abstrato pelo vanguardismo das seitas, preferimos participar do esforço de abrir caminhos para e com o poder popular, na práxis de reflexão, imaginação e tentativa contínua de superação das contradições e limitações que carregamos, em meio às lutas. Pela construção de alternativa consistente e viável de transformação social, capaz de canalizar de modo criativo e emancipatório o turbilhão rebelde de desejos de destruição das violências sociais.

“Os que virão, serão povo. E saber serão, lutando”.

PS: obrigado à Helena Martins, que me fez conhecer o depoimento da ex-funcionária da Toulon; e ao Rodrigo F. de Magalhães, pelo produtivo diálogo sobre este tema, em que pesem nossas divergências. Este texto é influenciado também pelo constante diálogo com o amigo Fernando Nogueira “Sansão”, e pela minha inveterada leitura do Bruno Cava (apesar das discordâncias que também temos, claro).

Que entendemos por Poder Popular?

Publicado em

Segue contribuição do grupo Brasil e Desenvolvimento sobre discussão político-conceitual da mais alta relevância.

No nosso exercício contínuo de reflexão coletiva a partir da práxis das lutas e do estudo e debate teórico para responder às inquietações que dela surgem, periodicamente revisamos e atualizamos a “Carta de Fundamentos” do B&D. Incorporamos a esse documento, hoje, nova versão, com modificação considerável na parte sobre poder popular. Confira aqui. Abaixo, segue nossa compreensão – sempre aberta ao aprendizado para seguir se aperfeiçoando – sobre esse objetivo fundamental que justifica a existência do grupo.

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Poder popular

“O poder do povo vai criar um mundo novo”

O poder não está sacralizado em leis imutáveis e nem deve ser visto apenas como ferramenta ou meio para o alcance de um dado fim. Para nós, a multiplicação social do poder é o próprio fim: o alargamento de capacidades e práticas de autogoverno e o fortalecimento da organização insurgente e autônoma das/os oprimidas/dos e das/dos exploradas/os, capazes de recriarem o mundo social sobre novas bases cognitivas e pragmáticas, mediante sua luta pela emancipação. A isso chamamos poder popular.

A realização desse objetivo revolucionário fundamental depende do fortalecimento de sujeitos e processos que instaurem rupturas com o caráter alienante e espoliador do sistema político, cultural e produtivo vigente e construam possibilidades reais de sua superação.

A produção do poder popular exige que voltemos os olhos também, portanto, para as limitações, obstáculos e adversários que enfrenta, bem como as estratégias desenvolvidas para suplantá-los.

Esses obstáculos e limitações são de diversas ordens. Em primeiro lugar, observa-se que as estruturas sociais – capitalistas, racistas, colonizadoras, patriarcais, heteronormativas – produzem, de forma sistemática e entrelaçada, exploração e dominação dos mais amplos grupos populacionais. Por conseguinte, os movimentos sociais contra-hegemônicos, por meio dos quais os povos se mobilizam para construir modelos alternativos de sociedade – igualitários, libertários e cooperativos –, têm papel proeminente na luta pelo poder popular.

Em segundo lugar, é necessário levar em conta que o Estado cumpre papel fundamental na reprodução das estruturas citadas – não por acaso, é um dos grandes violadores dos direitos humanos (senão o maior) e criminaliza movimentos sociais sistematicamente. Por isso, deve-se ter em mente que a luta pela radicalização da democracia invariavelmente entra em choque com a institucionalidade estatal e seus aparelhos de repressão violenta e legitimação simbólica, instrumentalizados pelos sistemas de dominação existentes.

A ação direta deve ser valorizada, portanto, como o mecanismo fundamental de construção do poder popular, de forma autônoma com relação ao Estado capitalista, racista, colonizador, patriarcal e heteronormativo; e, por vezes, em clara confrontação com ele, mediante o exercício democrático do direito à resistência. Ação direta não significa apenas, no entanto, desobediência civil e insurreição; também abarca diversas outras situações e formas de atuação mediante as quais comunidades e movimentos desenvolvem e fortalecem seus próprios meios de sociabilidade, organização política, produção cultural e econômica, com autonomia frente ao Estado e aos grupos dominantes contra os quais lutam.

Por outro lado, não se pode ignorar que a institucionalidade estatal é dotada de fraturas internas: existe certa abertura à participação social (ainda que de forma desigual e violentamente apassivada), bem como é possível pressioná-la em alguma medida para conquistar normas legislativas, políticas públicas e sentenças judiciais que eventualmente podem contribuir ao fortalecimento do poder popular. Disputar as contradições do Estado, de diversas maneiras de acordo com a conjuntura de cada momento, pode ter papel decisivo para obter vitórias nas lutas.

Porém, seria um erro superestimar a abertura procedimental da institucionalidade estatal, que ainda é pequena para as amplas massas populares oprimidas, além de bastante limitada nos efeitos concretos que gera. A necessária democratização radical da sociedade, da produção do poder político, não pode ser feita exclusivamente ou prioritariamente, portanto, “por dentro” das instituições. Não basta alargar a participação popular no Estado, embora isso também seja importante.

O fundamental, fazemos questão de repeti-lo, é a construção de poder dos e com os sujeitos coletivos que se organizam desde baixo, em sua práxis criadora e estimuladora de novas compreensões, mecanismos, práticas e cultura política. A disputa da institucionalidade estatal não deve ser feita como fim em si mesmo nem como objetivo estratégico prioritário, mas de modo organicamente vinculado e subordinado ao fortalecimento desse bloco de lutas.

Índios ocupam o Congresso Nacional em 2012. Poder dos Povos em construção na luta!

Índios ocupam o Congresso Nacional, em 2012. Poder dos Povos em construção na luta!

A política do Facebook e as tarefas da esquerda: a revolução se faz no presente

Publicado em

Por João Telésforo e Edemilson Paraná

facebookruaAutoconvocação de massas

Algumas análises têm observado como a mídia tradicional, em especial a Rede Globo, mostra-se capaz de influenciar as atuais manifestações, fortalecendo ou enfraquecendo agendas e grupos.  Não ignoramos esse fato. Porém, talvez se esteja superestimando a capacidade da grande imprensa – ou melhor, da velha mídia oligárquica – de dirigir os “movimentos” espontâneos dos últimos dias, por se desprezar um fator fundamental para a sua gênese e dinâmica política: as redes sociais, em especial o Facebook.

Meios de “autocomunicação de massas”, como Facebook, Twitter e Youtube, instauraram uma mudança estrutural na esfera pública. Até alguns anos atrás, não era tão fácil para uma massa de pessoas dispersas se comunicar e, portanto, ter capacidade de se autoconvocar. Dependia-se muito mais de uma direção, de um centro emissor forte engajado na mobilização: seja um canal de TV, grandes jornais, Igrejas ou outras organizações com capacidade aglutinadora criada por forte trabalho de base. Facebook e outros instrumentos da “rede” facilitam que uma massa amorfa e fragmentada se comunique sem depender da ação de um centro emissor e mesmo de “lideranças” que sirvam de referência objetiva e subjetiva para essa mobilização.

“Cidadania digital” e fragmentação do espaço público

A facilidade de mobilização, porém, não significa que essa massa tenha a mesma facilidade de se formar ou de se organizar de modo mais consistente por meio dessas ferramentas. Pelo contrário, pode ficar até mais difícil. Há mais de dez anos, diversos estudiosos têm constatado que a internet tende a incentivar as pessoas a praticamente só entrarem em contato com aquilo que concordam. As redes sociais fortalecem ainda mais esse processo de reafirmação de preferências. E o fortalecem, sobretudo, por meio de um direcionamento tecnicamente ancorado em algorítimos de seleção. Por trás da operação do Google ou o Facebook está uma busca empresarial e publicitária em apresentar e oferecer como conteúdo exatamente aquilo que mais agrada, aquilo que o usuário “receberá” e absorverá com mais facilidade, mantendo-o de modo confortável (e quase compulsivo) na plataforma.

O “cidadão 2.0” encontra no seu espaço público virtual uma série de opiniões discordantes. Porém, o debate a respeito parece não apenas não se aprofundar, mas nunca se apresentar de modo claro: perde-se em meio ao fluxo de informações e à torrente frenética de memes para todos os gostos. É da dinâmica desses instrumentos, pois, o imediato, o simples, o fugaz. O império da performance e do imagético diante do discursivo (ainda que imagem seja  também discurso) tem um impacto profundo na cognição dos debates virtuais e, portanto, na construção da dita “democracia digital”.

Formas mais tradicionais de mobilização eram construídas ou por uma direção que aprofundava a formulação política e era legitimada (ou se fazia legitimar) por uma base; ou por espaços como conselhos e assembleias, nos quais existe um ambiente de discussão entre diversos pontos de vista visando à tomada de uma decisão. Por mais que assembleias não correspondam ao sonho utópico – e com um quê de desumano – dos modelos deliberativos racionalistas, há nelas não apenas algum espaço para o convencimento com base em razões, mas, sobretudo, a busca da construção de convergências e divergências claras, a tentativa de construir sentidos comuns que favorece a politização, força à compreensão mútua dos sujeitos.

Seria o Facebook uma grande, gigantesca assembleia, com as dificuldades enormes que isso traria? Talvez. Porém, parece haver diferenças de qualidade, e não simplesmente de quantidade: a lógica “participativa” das redes sociais parece guiar-se não apenas por métodos, mas por propósitos consideravelmente diferentes  daqueles dos conselhos e assembléias.

Tudo indica que vivemos em um tempo contraditório (como sempre o são momentos de transição de uma realidade a outra), em que a lógica do broadcasting (grandes cadeias de rádio e televisão falando para as massas organizadas com base em seu lugar de trabalho e produção), da sociedade industrial e da lógica da comunicação “um para muitos” é paulatinamente substituída pela lógica do “muitos para muitos”, das redes sociais, da desterritorialização e desespacialização do trabalho no capitalismo informacional. Trata-se de um novo modo de comunicação para um novo modo de sociedade e vice-versa. Trata-se do tempo da “transmídia”: as televisões e rádios interferem nas mídias sociais, que interferem nas ruas, que voltam a interferir nas televisões e rádios; e assim por diante num ciclo que se retroalimenta. A linearidade cognitiva, discursiva e ideológica do século XX está posta em cheque.

Desafios da esquerda: que fazer?

Ante esse diagnóstico, a velha pergunta: que fazer? [E aí vai implícito, desde o nosso lugar de fala: o que nós, da esquerda revolucionária, devemos fazer?]

A pior postura que poderíamos assumir seria nos instalarmos numa posição saudosista dos velhos tempos, que amaldiçoa a “pós-modernidade” e as redes sociais. O mais curioso é que são justamente alguns supostos marxistas que parecem assumir essa atitude regressiva, que está em franca contradição com a teleologia progressiva de Marx, para quem a esquerda deve tratar de aproveitar as bases materiais e as contradições do capitalismo para movê-lo para o futuro.

Independentemente de teleologias, a esquerda precisa se reinventar, se quiser fortalecer seu projeto libertador de sociedade.

Primeiro, de modo mais imediato, apresenta-se como óbvia a tarefa de intervir na conjuntura atuando conforme a cognição que está implantada nas redes sociais. Tratemos de fazer mais memes, vídeos curtos, etc, em defesa de nossas bandeiras. “Ocupemos” a rede com política.

Segundo, é fundamental estender para o conjunto da população o acesso pleno à base material de que hoje as maiorias ainda são privadas no Brasil: internet de qualidade. Se nossa preocupação é com empoderar as classes subalternas, devemos lutar urgentemente pela internet banda larga universal e gratuita ou a preços extremamente acessíveis.

Terceiro: para democratizar a internet, não basta universalizar o acesso a ela. É necessário construir poder alternativo ao das grandes corporações que hoje a controlam em sua estrutura, base física e, em considerável medida, conteúdo. Facebook e Google, por exemplo, são empresas pautadas pelo lucro, e que muitas vezes têm posturas de conivência e colaboração com o vigilantismo dos governos – isso para não falar da invasão da privacidade dos usuários a serviço de seus interesses econômicos. Além disso, a produção de informação jornalística está cada vez mais concentrada em grandes agências, gerando um processo de oligopolização que também afeta a internet, e se mescla ao controle da infra-estrutura física da rede (cabos, servidores, distribuição, etc) pelas grandes empresas de telecomunicações. Trata-se, então, de uma luta contra o complexo comunicacional pautado pelo lucro e pelo vigilantismo, que atravessa Estados e grandes corporações da “velha” e da “nova” mídia.

Isso significa que a demanda pela democratização da internet exige a luta simultânea pela afirmação do princípio da neutralidade da rede (ou seja, que aquele que controla a infra-estrutura física da rede não possa condicionar seu conteúdo, escolher, com base em interesses de lucro e geopolíticos, quem os recebe ou não); pelo software livre; pelo fim do oligopólio das redes de rádio e TV no Brasil; pelo apoio e financiamento à comunicação comunitária; e pela construção autônoma de redes sociais autogestionadas, não pautadas pelo lucro nem controladas diretamente por grandes corporações e pela política externa de Washington e seus aliados. Dentre uma série de outras lutas convergentes…

Quarto, a luta se dá na esfera virtual (e na disputa pela sua base física) com cada vez maior centralidade, mas não apenas nela. É necessário aproveitar o momento de ascenso de massas, a valorização da participação na rua, para que o encontro no espaço público não seja apenas entre individualidades estanques, mas produtor de novas subjetividades coletivas, formadas pela cultura de colaboração, tomada de decisões pautada pela convivência, diálogo e conflito democrático no espaço público. Precisamos fortalecer a nossa capacidade coletiva de tomar decisões coletivas: construir autonomia política da sociedade não passa simplesmente por cada um/a ir à rua manifestar sua indignação individual, mas por interagir com os/as demais para formular e implementar projetos políticos comuns – mas sem a lógica totalitária de buscar identidades unas (a “luta contra a corrupção” que supostamente uniria a todos), que não apenas negam a alteridade e a pluralidade, mas deslegitimam o conflito, o grande produtor de democracia. Explorar as possibilidades de confluência dos movimentos saídos das “redes” virtuais com as diversas lutas urbanas, pelo direito à cidade em suas múltiplas dimensões, parece ser um dos bons caminhos para isso.

Quinto, é necessário retomar a velha e indispensável tarefa cotidiana do “trabalho de base”. No tripé clássico do trabalho revolucionário, formação e organização são tão importantes quanto mobilização. Boa parte da esquerda brasileira parece ter se esquecido disso, na medida em que se burocratizou e perdeu seu caráter e compromisso militante. Grupos conservadores como a direção das Igrejas neopentecostais não se esqueceram, o que certamente contribui para a hegemonia conservadora e o ascenso fundamentalista na sociedade brasileira.

O trabalho de base, porém, precisa ser criativo. Deve buscar na memória programática e organizativa da esquerda uma inspiração, mas não mais do que isso. É preciso buscar novas referências, métodos, e cultivar um espírito e práticas de abertura para colaborar com a construção de novos sujeitos – que, para serem efetivamente novos e terem capacidade de empreenderem suas próprias lutas, não poderão corresponder às imagens petrificadas trazidas de um passado distante. Para um nova configuração social e de comunicação, uma nova forma de fazer política e disputar a sociedade.

A revolução se faz no presente. E o tempo é de imaginar para revolucionar.

PS: os pontos três e quatro, da lista dos cinco, foram acrescentados posteriormente, a partir de comentários de Helena Martins e Natacha Rena… no Facebook.

PS2: este texto não objetivava propor um programa para a esquerda nas lutas atuais, mas discutir o estilo de trabalho a ser desenvolvido, à luz da leitura das condições materiais e sociais da configuração participativa posta. Acabamos enveredando por alguns pontos “programáticos”, particularmente no que diz respeito à democratização da internet, porque diz respeito de forma mais direta precisamente à infra-estrutura de participação pública que estamos analisando. Porém, sem perder a dimensão de totalidade, isto é, de que os problemas estão todos relacionados e a luta deve ser travada numa dimensão mais global, sabemos que a democratização da internet e das comunicações passa por uma série de outras questões.

*Originalmente postado no blog do B&D.

B&D convida: Grupo de Estudos Anticapitalistas

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Afinal, somos um grupo que acredita em revolução. Revolução enquanto processo diário e constante. Revolução que precisa de construções alternativas e contra-hegemônicas. Revolução que não foi escrita nem descrita em qualquer livro, mas que exige de nós, enquanto militantes, conhecimento da história e das ferramentas teóricas que nos são apresentadas. Certo ou errado, nossas escolhas se pautam pela conexão com a teoria que se aprende na prática e pela prática capaz de inovar e renovar a teoria.

(“B&D: Tomando Partido“, março de 2013)

Nós, militantes, precisamos estudar teoria? Pra quê?

Não é pra que saibamos usar autores chiques como adorno às nossas falas, apenas pra que fiquem mais “bonitas” ou… incompreensíveis.

Também não é pra descobrir receitas prontas ou fórmulas universais sobre como mudar o mundo. Quem quiser algum livro sagrado com dogmas deve procurar, talvez, uma Igreja, e não uma teoria, muito menos um pensamento revolucionário.

Então… Pra quê?

Me diz aí, você que sonha com “um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres” (Rosa Luxemburgo), como a gente… Como é que constrói isso aí, que a gente chama de socialismo?

Só por meio da militância diária nas lutas anticapitalistas e de combate às opressões, do engajamento coletivo no processo social de criatividade de novas práticas e estruturas, é que vamos ser capazes de fazer isso.

Ok, sabemos disso, concordamos. Mas, então, me diz aí, já que você falou de “lutas anticapitalistas”. Que danado é esse tal de capitalismo, hein? Porque, afinal, se queremos combatê-lo e superá-lo, é legal pensar se estamos fazendo isso mesmo ou não, né? Então, parece interessante saber que negócio é esse.

Cada um(a) de nós tem várias intuições sobre isso, claro, a partir de experiências, leituras, conversas. São válidas e úteis. Mas, não dá vontade de pensar e discutir isso mais a fundo? Quais são as principais características do capitalismo? Como ele se formou historicamente e se transformou? De que maneira está relacionado às estruturas sociais racistas, machistas e heteronormativas, ao genocídio contra os povos indígenas e africanos, à dominação das mulheres, ao fundamentalismo religioso, à corrupção, à destruição ambiental e às guerras? Como as classes sociais estão estruturadas na América Latina e no Brasil hoje?

Essas e outras perguntas têm enorme valor prático, e as respostas não são simples. Exigem reflexão, pesquisa. Claro que a investigação e compreensão da realidade também se faz no dia a dia da militância, em diversos níveis. Porém, o estudo teórico propriamente dito (se é que faz algum sentido essa separação prática-teoria, taí outra questão) pode e deve ser também, justamente por isso, uma dimensão da prática militante: uma das formas de investigar a realidade, interpretá-la, compreendê-la para transformá-la, é estudar o que uma galera já andou escrevendo sobre isso aí.

Uma galera tipo o Karl. Karlinhos, o Marx. Um cara que teve umas sacadas interessantes, extremamente atuais (algumas delas com o Fred, brother dele). Até George Soros, mega investidor, bilionário, diz que Marx é fundamental pra entender o mundo de hoje. E você taí com a cabeça fechada pro nosso camarada Karl? Não tô dizendo pra você concordar com tudo o que o rapaz falou. Sabe qual era o lema de vida dele? “Duvidar de tudo”. Sabe uma das definições que ele deu ao comunismo? “A crítica radical de tudo o que existe”. Então, nesse espírito, certamente Marx se reviraria no túmulo se você adotasse postura reverencial, acrítica diante dele. Não, o Karl deve ser lido como se lê a um(a) amigo(a), um(a) colega, e, em especial, um(a) companheiro(a) de militância. Com postura de reflexão, crítica, e pensando o que ele e vários/as outros/as podem oferecer como ponto de partida pra que elaboremos nosso próprio pensamento, a partir das circunstâncias e desafios atuais da mudança concreta do mundo. E, olha, o cara ainda contribui muito, viu. #ficaadica

Formaremos um “grupo de estudos anticapitalistas”, então, com o objetivo de compreender o capitalismo mais a fundo. Porém, mais do que isso: também pra pesquisar e pensar experiências e concepções de sua superação. Outras pessoas antes de nós enfrentaram o desafio de construir estratégias e lutas anticapitalistas, outras estão enfrentando isso agorinha mesmo, e muita gente escreveu ou tá escrevendo sobre isso, a partir dos problemas que enfrentavam ou enfrentam e das saídas que julgavam ou julgam adequadas. A gente pode tentar bolar a nossa estratégia e desenvolver as nossas iniciativas sem considerar todo esse acúmulo histórico – seja o de dois séculos ou de um ano atrás. Mas, não faz mais sentido levar isso em conta? Não pode ser uma boa fonte de compreensão, reflexão, inspiração?

Nosso grupo terá dois grandes objetivos, então: (i) estudar teorias sobre o capitalismo e possibilidades de sua superação, valorizando em especial as teorias elaboradas como parte da militância revolucionária, tal como na tradição do marxismo; (ii) estimular a nossa produção e discutir textos de nossa própria autoria sobre essas questões.

Quer participar? Chega aí! Algumas informações úteis: (i) as reuniões serão quinzenais, normalmente aos sábados à tarde (15h); (ii) haverá indicação de textos para cada reunião, de tamanho não muito longo (cerca de 30 páginas, no máximo 40 ou 50), para que possamos ter o compromisso de lê-los e aprofundar o debate sobre os pontos trazidos neles; (iii) o grupo é impulsionado pelo B&D, mas aberto a outras pessoas, que poderão participar igualmente da definição da agenda de leituras, discussões, etc.

A primeira reunião será no dia 25 de maio, e o texto-base será a parte do Capital, de Marx, sobre “a chamada acumulação original” do capital. Umas vinte páginas de pura emoção sobre a formação histórica do capitalismo, que você pode acessar a partir daqui: http://www.marxists.org/portugues/marx/1867/capital/cap24/index.htm
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Alguns dos principais estudiosos contemporâneos do capitalismo, como David Harvey, enfatizam a importância da compreensão da “acumulação original” (ou “primitiva”) para pensar também o mundo de hoje.
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Para participar do grupo de estudos, envie um e-mail para brasiledesenvolvimento@gmail.com inscrevendo-se e confirmando que comparecerá no dia 25, ou justificando a ausência.

A aposta radical das cotas: luta das/os oprimidas/os e ruptura epistemológica e política.

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cotas

Já acumulamos alguns anos de discussão sobre o tema das cotas no Brasil. Dois exemplos famosos: reserva de vagas para negros/as, indígenas, estudantes de baixa renda e egressos/as da escola pública no acesso à universidade; reserva de vagas para mulheres em cargos de representação e direção política.

O debate amadureceu muito (e eu tenho amadurecido com ele), mas ainda me incomoda que as cotas sejam predominantemente defendidas, no senso comum, apenas como políticas compensatórias, e não tanto como aposta de que a inclusão de grupos oprimidos em certas instituições traga o potencial de intensificar o combate às opressões geradas por elas e reproduzidas em seu interior.

Você já está bastante acostumado a ouvir falar no aspecto compensatório das cotas. Exemplo. As estruturas sociais discriminam os/as negros/as e isso prejudica o seu acesso à educação superior. Portanto, ações afirmativas voltadas à inclusão de negros/as na universidade não visam a privilegiá-los/as, mas a corrigir uma barreira ao seu acesso. Isso não atenta contra o “mérito”; pelo contrário, contribui para que a seleção avalie o verdadeiro mérito. Digamos que alguém que enfrentou uma série de barreiras de discriminação racial e de classe ao longo de seu percurso de vida e escolar obtenha a nota 89/100 numa prova de ingresso, e alguém que não as enfrentou, 90/100. Sem nem entrar na questão sobre se a tal prova é mesmo uma boa forma de avaliar… Quem tem mais “mérito”, de acordo com ela? Quem mostrou maior talento, dedicação e capacidade de crescimento? Quem, uma vez que tenha um pouco menos de desigualdade de condições na universidade, tenderá a ter resultados melhores? Eu apostaria todas as minhas fichas na pessoa que obteve o 89.

Isso é fundamental, mas as cotas, a garantia de que pessoas de certos grupos ocupem certas vagas (desde que obtenham certo desempenho básico, em alguns casos), são mais radicais do que isso, em dois aspectos. O primeiro foi explicado pelo Gustavo Capela num texto aqui no blog, faz uns anos: inserir negros/as em posições de poder e prestígio é uma forma de romper com o imaginário social de que seriam incapazes de exercer certas profissões ou posições; de romper simbolicamente, visualmente, com a naturalização de seu lugar político, profissional, acadêmico e espacial subalterno (e a sociedade é feita também, em enorme medida, de construções e disputas simbólicas).

Há um segundo aspecto, no entanto, que parece escapar à maioria das discussões. O movimento negro, por exemplo, tem lutado por espaço em instituições como a universidade para combater o racismo no acesso a ela (de modo que a mobilidade acadêmica e social seja menos determinada por fatores raciais) e no imaginário social que enxerga o/a negro/a como inferior, mas também para combater o racismo na e da universidade em outro aspecto, o do conhecimento, cultura e educação produzidos por ela, tanto em seus conteúdos, como em seus métodos.

A universidade não tem servido, historicamente, à causa das e dos oprimidos: à colaboração com as lutas das classes trabalhadoras, das mulheres, dos/das negros/as e indígenas, dos/das sem-terra e sem-teto… Divulga externamente e para si mesma a imagem de que seria uma instituição “imparcial”, interessada na busca “desinteressada” do conhecimento, mas a verdade é que serve cada vez mais a empresas (privadas ou estatais) que têm interesses muito determinados: ampliar seus lucros, o que está em confronto estrutural com os interesses e anseios dos grupos citados, “minorias” que contemplam amplas maiorias da população. E mais: mesmo quando o/a pesquisador/a não é diretamente constrangido/a no que pode e deve pesquisar pelo estrangulamento de suas fontes financiadoras, o isolamento social da classe dominante na universidade, a reprodução inconsciente do senso comum de certa classe na seleção de temas e perspectivas de pesquisa, tende a produzir efeito semelhante (duas palavras-chave, aqui, são hegemonia e alienação… e quando falo em classe, aqui, leia-se também etnia e gênero dominantes, entre outros aspectos).

Como romper com esse processo de dominação e alienação na e da universidade? A aposta histórica da esquerda, pelo menos desde o século XIX, é que somente os/as oprimidos/as podem ser sujeitos de sua libertação, da superação das opressões. Portanto, se queremos romper com as práticas dominadoras na e da universidade, é fundamental que as/os oprimidas/os ocupem-na e disputem-na a serviço de suas causas libertadoras. Por isso, é fundamental a extensão popular, a produção de conhecimento pela univeridade em co-pesquisa com movimentos populares. Por isso, também, a aposta de que a inclusão direta dos/das oprimidas no espaço universitário, em especial dos/das oprimidos/as organizados como tal, em movimento de superação dessa condição (de “classe em si” a “classe para si”, diria o marxismo), pode ser decisiva.

Eu disse que pode ser, e falei ainda em aposta. Nenhuma certeza ou determinismo, pois. De fato, não há garantia alguma de que os/as negros/as que adentram a universidade, por exemplo, farão esse combate de modo organizado e sistemático. Porém, é mais provável que consigam fazê-lo quando conseguem ao menos presença no espaço, serem partes dele, do que quando não têm sequer esse nível básico de acesso.

Falei ilustrativamente da universidade e das cotas raciais, mas isso também me parece valer para outros tipos de cotas. Em movimentos sociais e partidos políticos, por exemplo, instaurar cotas para mulheres em postos de direção e representação pode servir para romper com a invisibilização de suas capacidades e a naturalização de que não têm as qualidades exigidas para funções de liderança. Porém, tem potencial ainda maior do que esse: a abertura de espaços e o empoderamento possivelmente conquistado pelas mulheres ao exercer tais cargos tem o potencial de aumentar a capacidade da organização de combater o machismo no seu interior, na sua práxis e na política que apresenta.

Então, não é apenas para “compensar” o nosso machismo, contra o qual lutamos (que nos leva, inconscientemente, a não reparar e valorizar tanto nas qualidades dirigentes das mulheres), que defendo cotas para mulheres em postos de direção do B&D e do PSOL, por exemplo (cotas que já existem, aliás, mas em alguns casos poderiam ser maiores). Vou além disso: uma mulher, por ser mulher (e ainda mais quando é feminista, envolvida na luta para se constituir como “mulher para si”, digamos), tem sim um diferencial positivo que deve ser valorizado na ocupação de postos de direção e representação numa organização que se pretenda feminista. A cota, assim compreendida, não desvaloriza em nada a mulher, como se necessitasse dela por não ter qualidade para ser dirigente ou representante. Pelo contrário: valoriza a sua luta e seu potencial universalizante. Ser mulher e feminista é, em si, uma qualidade a ser valorizada com orgulho numa dirigente, numa organização feminista. Consequência da aposta de que a as/os oprimidas/os são as/os maioras/es portadoras/es do potencial de lutar contra as opressões, os sujeitos protagonistas da construção de uma sociedade livre e igualitária.

Pela defesa e ampliação de cotas para mulheres, negros/as e outros grupos oprimidos!

*Texto originalmente postado no blog do B&D.