Assinatura RSS

Gracias a la vida

capa_gracias-a-la-vida-1

“Não venci todas as vezes em que lutei. Mas perdi todas as vezes em que deixei de lutar”.

Li, nesse fim de semana, o livro de memórias do Cid Benjamin: “Gracias a la vida: memorias de um militante”. Minha parte preferida foi aquela sobre a sua experiência na resistência à ditadura, não só pelo relato fascinante (de um militante que atuou no movimento estudantil e na luta armada), mas também pelas reflexões sobre as leituras políticas e estratégias de luta da esquerda, entre outros temas (a tortura, o exílio…). Cid conta também algo de sua experiência no PT, de que foi fundador e militante durante muitos anos (veio para o PSOL em 2005).

Tenho acordo com a maior parte de suas opiniões (embora não com todas, óbvio, e até tenho divergência forte com pelo menos uma das manifestadas no livro). Mesmo que não fosse o caso, ler suas memórias de qualquer forma me traria uma injeção de ânimo militante e busca de lucidez política. Com menos de 20 anos de idade, Cid doou-se radicalmente à luta contra a opressão. Nos seus anos de juventude, ao longo de mais de uma década, viveu a clandestinidade, a prisão, a tortura e o exílio. Que mesmo assim afirme que valeu a pena já seria muito estimulante para nós, militantes pela transformação social.

Além disso, ele faz qualificada autocrítica da estratégia da luta armada, naquela conjuntura (sem condená-la com moralidade hipócrita; pelo contrário, reafirmando a dignidade da luta), o que é também extremamente motivador. Afinal, um vício de alguns setores da esquerda que me incomoda muito é a dificuldade de autocrítica radical, não simplesmente por arrogância, orgulho ou desonestidade intelectual, mas também, muitas vezes, por se supor que a a autocrítica nos desarmaria para a luta, porque afetaria o nosso moral, a disposição para seguir lutando, ou ainda a nossa credibilidade pública. Tenho a convicção de que é o oposto: a atitude permanente de autocrítica, além de essencialmente nos munir com as armas da lucidez, aumenta nossa credibilidade, por demonstrar espírito de reflexão sincera e profunda, de humildade, de abertura para o aprendizado. E mais: a autocrítica pode até dar a impressão de desmobilizar em alguns momentos, mas tenho plena convicção de que a autoproclamação cega desmobiliza muito mais no longo prazo, ainda que de imediato não o pareça. As pessoas em geral não aguentam permanecer numa militância alimentada por autoilusões… E quem está fora também o percebe, e permite-se menos ainda iludir-se com tal tipo de referente político.

Talvez em sua capacidade de autocrítica radical (mas jamais “arrependida” em tom resignado) resida uma das chaves para compreender por que, diferente de tantos outros com passados igualmente heroicos, Cid não tenha capitulado da luta socialista, por democratizar radicalmente a sociedade brasileira.

Pra quem quiser comprar o livro: http://livraria.folha.com.br/livros/biografias-e-memorias/gracias-la-vida-cid-benjamin-1215577.html

Votar 13 para derrotar o antipetismo antidemocrático e escolher o cenário em que lutaremos

Tenho duas principais razões para votar em Dilma amanhã. A primeira é subjetiva: uma parcela do sentimento antipetista enxerga o PT como grande inimigo por associá-lo ao processo de inclusão democrática de pobres, mulheres, quilombolas, índios, gays e lésbicas, enfim, a “tudo o que não presta”, nas palavras do líder ruralista Heinze (PP-RS), apoiador de Aécio Neves. Nas versões mais delirantes, o antipetismo chega a assumir tonalidades explícitas de anticomunismo (!).

Evidente que o PT não tem caráter socialista nem comunista, e seu governo de coalizão muito menos. É claro, também, que a inclusão promovida pelos 12 anos de governo petista foi muito limitada, tímida (recomendo ver pesquisas de Marcelo Medeiros que mostram que a desigualdade social manteve-se estável no Brasil de 2006 a 2012), e não é difícil ver que em várias dimensões ultrapassou a linha do “limitado” ou “recuado” para chegar à de adversário de segmentos sociais historicamente oprimidos – a questão indígena talvez seja a que expresse com mais nitidez o quanto o modelo petista de gestão do capital não significa uma alternativa “humanizadora”, mas também destrutiva social e ambientalmente. Outro exemplo claro é como segue crescendo a militarização da segurança pública e da vida – e Dilma falou com orgulho, no debate de ontem, mais uma vez, da ocupação da favela da Maré, no RJ, pelo Exército.

Então, é verdade que esse sentimento antipetista reacionário enxerga no PT algo que em certa medida ele nunca foi (comunista), e em grande medida ele deixou de ser (veículo para emancipação política do conjunto dos setores marginalizados da nossa população). Porém, mesmo assim, é um sentimento, um afeto político, muito perigoso, cujo fortalecimento representa um risco não simplesmente ao PT e ao conjunto da esquerda e das lutas libertárias (que esse setor coloca no mesmo balaio), mas do fortalecimento da nossa democracia. Derrotar essa política do ódio à alteridade, à participação política plural, à diversidade humana e à igualdade social já seriam razões suficientes e necessárias, na minha opinião, para votar em Dilma (pois, por mais que ela tenha se aliado a segmentos sociais e políticos que pensam com essa cabeça, não é esse o sentimento de seu eleitorado, nem que sua campanha fomenta, nem que se fortalecerá pela sua vitória). [Importante ressaltar, por fim: nem todo antipetista é reacionário, há outras modalidades. Mas o sentimento antipetista reacionário é expressivo e precisa ser derrotado mais uma vez].

A segunda razão para votar em Dilma é objetiva: seu governo terá mais condições de viabilizar condições materiais minimamente menos desfavoráveis à luta por emancipação social do que o do PSDB. Como já disse, o projeto petista de gestão do capital também gera tragédia social e ambiental, e além disso também tem apostado não só na desmobilização e cooptação, mas ainda, em especial nos últimos anos, na repressão direta à mobilização e organização popular. Porém, fazem diferença políticas como o aumento real do salário-mínimo e o forte compromisso de que o governo não vai apostar em desemprego e achatamento de salários, enfim, em aviltamento ainda maior das condições de vida da maioria da população brasileira, como suposta saída da crise. Isso faz diferença ainda maior quando, do outro lado, o que vemos é Armínio Fraga, com o mesmo discurso da década de 1990… Em cenário de crise sistêmica e global do capitalismo, o governo de Dilma sofrerá fortes pressões para tomar novas medidas draconianas contra os/as trabalhadores/as, mas avalio que as condições para resistir a essas medidas serão melhores com ela do que com o PSDB – comparando histórico, base social, compromissos de campanha, etc.

Então, meu voto para a Presidência é um voto convicto. Respeito muito quem vota nulo e está na luta diária junto aos movimentos sociais, ou pelo menos apoiando-os. E é aí que seguirei, empenhado em construir um campo político capaz de se apresentar como alternativa para superar não simplesmente o PT, mas a hegemonia, em nosso sistema político, organização econômica e convivência social, do capitalismo predatório, dependente, colonial, racista, machista, homofóbico, opressor.

João Telésforo, militante do PSOL e da Esquerda Libertária Anticapitalista – ELA

No meio do rolê tinha Pedrinhas*

Depois de passarmos o início do ano horrorizadas com as imagens do presídio de Pedrinhas, no Maranhão, começamos na última semana a nos empolgar com os rolezinhos. E é muito interessante que a atenção nacional tenha se voltado a esses dois acontecimentos sucessivamente. Mais interessante ainda, contudo, é que eles não tenham sido evidentemente relacionados em nossas reflexões.

Apesar de as atrocidades ocorridas na penitenciária do Maranhão – que não são particularmente mais violentas que aquelas cometidas contra os outros 550 mil presos pelo país – terem sensibilizado bastante, não se questiona o que a produziu. Recorre-se ao expediente de se despejar toda a culpa na família Sarney. Obviamente, essa e outras velhas oligarquias há décadas ou mesmo séculos encalacradas nos Poderes do Estado têm grande dose de responsabilidade por tragédias como a de Pedrinhas. Porém, o antagonismo muitas vezes implícito entre um Brasil “moderno” e um “arcaico” é plenamente insuficiente para compreender nossas prisões.

A população carcerária brasileira multiplicou-se por seis de 1990 a 2012, período da nossa história comemorado por vários setores como de “modernização”. As nossas prisões talvez sejam o maior retrato de que permanece em voga a modernização conservadora e seletiva, nas palavras do sociólogo Jessé Souza: incapaz de desestruturar velhos mecanismos de exclusão e opressão, bem como as ideologias que o naturalizam.

O presídio é este símbolo de depósito de tudo o que há de errado no mundo. Queremos jogar lá quem trafica, estupra, mata, rouba, bate em mulher, pratica racismo e homofobia. Seguimos confiando na prisão para lidar com os inimigos que elegemos. O grande problema é que o sistema punitivo só tem um inimigo: os pobres da periferia, especialmente os jovens e negros. Ou seja, a galera dos rolezinhos.

Os rolezinhos, queiram-no ou não, desafiam a naturalização da desigualdade social e racial que está na raiz do caso Pedrinhas. Confrontam o apartheid entre lugares de gente rica, branca e “diferenciada”, e os reservados para a “ralé” pobre e negra, confinada em espaços de circulação restrita, de que a cadeia é o exemplo mais berrante.

Se nos entusiasmamos tanto com os rolezinhos da juventude da periferia, se entendemos as suas demandas como válidas, precisamos problematizar as apostas políticas no direito penal. Ver os presídios como depósitos de bandidos, marginais, monstros, enfim, de todos com quem não queremos conviver, é aceitar o discurso que desumaniza aquele(a)s atrás das grades. É ignorar que o direito penal é a principal forma de controle de grupos subalternos e a sustentação legal para a ação violenta das polícias: ao fim e ao cabo, não importa quantos novos crimes sejam criados, quem vai acabar preso são os jovens pobres e negros. E pelos mesmos crimes de sempre: tráfico de pequena quantidade de droga (a mesma quantidade que seria considerada consumo para o playboy), furtos sem violência e brigas de rua.

É preciso rechaçar a prisão e pensar novas formas de responsabilização. Fundamental propor instrumentos que se afastem do encarceramento sustentado por um direito penal meramente simbólico para as elites, mas muito concreto para a galera do rolê.

Os brados humanitários por condições “mais dignas” nos presídios, que mais uma vez vêm à tona com a situação do Maranhão, muitas vezes são apenas a manifestação de má consciência de quem não abre mão de aparatos de opressão em massa. A real potência de destruir as Pedrinhas do meio do caminho está na proliferação de rolezinhosPinheirinhos e tantos outros atos coletivos de insubordinação subalterna.

*Texto publicado na Carta Maior, em co-autoria com Mayra Cotta.

É preciso libertar Nelson Mandela

AO LONGO DE DÉCADAS, Nelson Mandela liderou um movimento de combate ao Apartheid racial da África do Sul por meio de diversos métodos, com destaque para os de ação direta, como greves, manifestações de massas e, inclusive, para se contrapor à violência sistemática do governo, resistência armada. Madiba participou da fundação do braço guerrilheiro do Congresso Nacional Africano (CNA), o “Umkhonto we Sizwe” (Lança da Nação). Preso por 27 anos, recusou-se a aceitar a “liberdade” em troca da rejeição incondicional da violência como instrumento de luta política. Enquanto o governo prosseguisse reprimindo violentamente a população negra, não poderia aceitar tal condição. A luta de Madiba e de milhões de sul-africano(a)s, afinal, era por sua libertação coletiva, e não simplesmente pela liberdade de lideranças individuais.

Não por acaso, Mandela permaneceu como preso político por tanto tempo. Não por acaso, Margaret Thatcher, a poderosa Primeira-Ministra Britânica, amiga e aliada de ditadores como Augusto Pinochet e ícone do neoliberalismo, não apenas recusava-se a impor sanções contra o regime do Apartheid, mas declarou, em 1987, que o CNA (partido de Mandela) era “uma típica organização terrorista”. Parlamentares do partido conservador da “Dama de Ferro” chegaram a pedir publicamente pela morte do líder da resistência ao Apartheid, na mesma época. Um ano antes, em 1986, o Partido Republicano de Ronald Reagan, nos EUA, votara contra uma resolução para reconhecer o CNA como partido político e apelar ao governo para libertar Nelson Mandela. O líder da luta contra o regime de segregação racial só saiu da lista de terroristas do governo norte-americano em 2008.

.Esse Mandela, o radical, é o que faço questão de lembrar, hoje, em tempos nos quais, no Brasil, a luta coletiva por direitos ganha cada vez mais corações, mentes, pés e braços; em tempos nos quais um morador de rua, Rafael Vieira, é condenado à prisão por porte de pinho sol em manifestação; tempos nos quais uma gari, Cleonice Vieira de Moraes, morre em Belém do Pará, em junho, como uma das vítimas do gás lacrimogêneo jogado aos montes pela PM contra manifestantes; tempos nos quais partidos governistas e da oposição conservadora mobilizam-se para aprovar, no Congresso, uma lei que cria o tipo penal de “TERRORISMO CONTRA COISA“  e agrava penas de “incitação ao terrorismo” (contra coisa?) quando cometidas pela internet…

Quem quer mudar o mundo, quem quer resistir a esta ordem injusta na qual vivemos, precisa estar pronta para ser chamada de terrorista, ainda que seja o oposto disso. Deve preparar-se para ser marginalizada e seguir em luta contra todas as formas de marginalização. Mandela e a vitoriosa luta coletiva contra o Apartheid na África do Sul nos ensinam: “não é da docilidade dos poderosos, mas dos ardores irredutíveis da insubmissão” (como dizia García Linera, outro ex-guerrilheiro e preso político), que nascem os direitos, a liberdade igualitária, a dignidade.

O que temos a aprender com o Mandela conciliador, bem comportado, muitas vezes o único mostrado e incensado pelos discursos oficiais e grande mídia? A estratégia da conciliação com o capitalismo tem sido capaz de aprofundar as conquistas democráticas e em oposição ao racismo, às desigualdades sociais e ao neocolonialismo na África do Sul e no continente africano? Parece-me que não. Não entro nesta discussão agora, porém.

Tampouco interessa-me idealizar acriticamente o Mandela guerrilheiro, ou o movimento armado de que participou. Certamente, ele acertou e errou em diversas medidas em vários momentos, e devemos aprender com suas vitórias e fracassos – não como indivíduo quase beatificado, mas como alguém profundamente comprometido com a ação política coletiva.

É preciso promover a libertação póstuma de Nelson Mandela. Agora, da falsa imagem que têm buscado construir para ele nas últimas décadas e mais ainda na hora de sua morte, enquadrando-o como representante máximo de impotentes exortações morais de combate bem comportado, disciplinado e conciliador ao racismo. Não podemos deixar que se oculte e silencie a memória do Madiba insurgente, militante político da luta coletiva contra o racismo entranhado na colonialidade capitalista.

*Texto originalmente postado no blog do B&D, no dia 5 de dezembro de 2013.

História, memória, cidade… e ENEM

Luiz Antônio Simas, professor de História, publicou faz alguns dias um artigo chamando a atenção para a necessidade de “reconhecimento da cidade, pela própria população e pelos homens do poder, como um espaço acumulado de experiências que não podem simplesmente ser descartadas em nome da transformação do Rio de Janeiro em um balneário modernoso de grandes eventos”.

Podemos desdobrar em vários sentidos suas ricas reflexões. Veja-se, por exemplo, sua critica ao fato de que na escola estudamos mais a história das cidades europeias do que a daquelas onde vivemos: “Não se ensina, nas escolas do Rio de Janeiro, a história da cidade, dos seus bairros e ruas, como matéria sistemática do aprendizado. Fala-se mais, para um menino carioca de um colégio do centro, do Palácio de Versalhes do que do Palácio Monroe. Uma menina da quinta série do ensino fundamental aprende sobre as ágoras gregas e sequer escuta falar sobre a Praça Onze, ágora carioca e um dos berços da peculiaridade da nossa experiência civilizacional. Querem que um garoto do Morro da Providência aprenda que a Grécia foi o berço da filosofia ocidental (é ótimo que ele aprenda isso), mas esquecem de dizer ao moleque que a Pedra do Sal, pertinho de onde ele mora, moldou os batuques cariocas dos primeiros sambas. Sem o conhecimento, impera o descaso“.

Esse é um claro mecanismo de alienação, de impedimento à formação da consciência sobre as cidades em que vivemos como fruto de produção histórica, sobre os mecanismos sociais, políticos, econômicos, culturais dessa construção… Esse conhecimento poderia empoderar a luta pelo direito à cidade, isto é, por ser sujeito criativo de sua história, em condições de igualdade e liberdade.

A partir daí, proponho a seguinte reflexão: o uso de um Exame Nacional, como o ENEM, para fazer seleção para ingresso nas universidades, não tenderia a agravar esse quadro? Sabemos que a(s) prova(s) de seleção nas universidades exercem enorme influência nos conteúdos  ensinados nas escolas, em especial no Ensino Médio. Lembro-me do meu próprio caso: estudei muito pouco, na escola, de História e Geografia do Rio Grande do Norte (o estado onde nasci e morava). E esse pouco foi devido ao fato de que esses conteúdos eram cobrados nos vestibulares locais, em especial no da UFRN… Se não “caísse” no vestibular, com certeza seriam ainda menos trabalhados pela minha escola.

Há vários outros aspectos a serem considerados sobre o ENEM, vestibular e outras formas de seleção na educação superior. Porém, essa questão torna problemático, pelo menos, utilizar o ENEM como método único ou principal de seleção nas universidades, em especial das públicas. Se é para selecionar por meio de uma prova, que ela contemple questões da história e da geografia de cada estado de modo significativo e multidisciplinar.

PS: Lembrei-me desta cena da série “Cidade dos homens” (em especial a partir dos 6 min):
*Texto postado originalmente no blog do B&D.

A violência das ruas e os Inocentes da Esquerda Leblon

“Eu tô vendo um monte de gente incomodado com o quebra-quebra na Toulon. Sei que é polêmico o que eu vou dizer, mas eu, como ex-vendedora de loja, que trabalhava de 12/14h por dia em dias de grande movimento, sem ganhar hora extra, sem salário fixo, sem descanso no fds, tendo que chegar cedo pra limpar loja, tendo a bolsa e o corpo revistado ao sair, obrigada a bater meta, sob ameaça de ser mandada embora constantemente se não fosse rentável, tradada como produto da loja, obrigada a estar impecável, com as unhas e cabelos feitos no padrão da empresa (nada mais violentador pra mim do que ouvir que eu era um produto tb), vou ser bem franca, se eu trabalhasse ali EU ADORARIA VER A LOJA ARDER. 

Acho que eu acordava às 6h da manhã sonhando com isso todos os dias enquanto eu trabalhava em loja. 

Imagino que muitos vendedores de loja de Ipanema hj acordaram pensando “Droga! Pq não foi a minha loja!

Esse depoimento foi dado por uma ex-funcionária da Toulon, sobre sua alegria ao saber da destruição da loja de luxo do Leblon (bairro grã-fino do Rio de Janeiro) no contexto de manifestações em meados de julho. Ela não o divulgou anonimamente: postou-o no seu perfil pessoal no Facebook, com a coragem de expôr seu nome para deixar bem claro que se trata de um relato e de um sentimento real, de uma trabalhadora de carne e osso, e não algum tipo de invenção publicitária.

Quem seria de fato violento? O Estado e as empresas, que exploram, aviltam, oprimem, degradam, geram infelicidade, matam cotidianamente… Ou quem se rebela atacando símbolos e patrimônios (e não pessoas) desse sistema destrutivo de acumulação de capital, competição e consumismo, dominação econômica e cultural, coisificação do ser humano e mercantilização da vida?

manequim
Poucos dias antes do “vandalismo” contra lojas do Leblon, dez pessoas foram assassinadas durante operação policial na favela da Maré, também no Rio. Adivinhe qual desses fatos foi mais repercutido e criticado pela mídia…

Mais importante do que julgar os atos de destruição de lojas de luxo, agências de banco, concessionárias de automóveis, etc, é tentar compreendê-los. A esquerda radical é aquela que busca as raízes dos problemas para nelas encontrar as possibilidades de sua superação, ao invés de atacá-los apenas em sua superfície evidente (e por vezes enganosa).

Claro, em alguma medida a sanha destrutiva da turba parece ter sido insuflada por policiais infiltrados (com a cumplicidade dos governos, para dizer o mínimo), interessados em acirrar o conflito para tentar justificar a violência brutal da repressão (que inúmeras vezes foi detonada contra massas pacíficas). Porém, também parece bem claro que não foi o único detonador dessas ações.

Ao depoimento da funcionária da Toulon poderiam se somar inúmeros outros, sem dúvida alguma: de ira contra o escancarado caráter explorador do sistema econômico (que se expressou pela depredação aos bancos); de raiva gerada pela frustração com a má qualidade de vida, objetificação e falta de (auto)reconhecimento e prestígio social produzidos pela sociedade competitiva e de consumo burocratizado (representada pelos ataques a lojas de luxo e concessionárias de automóveis); de revolta contra a violência policial sistematicamente utilizada pelo Estado contra a periferia, as mulheres, os povos indígenas, a juventude negra, a população LGBT ou contra a participação política contestadora.

É inegável que toda essa raiva social acumulada contra as instituições vigentes – que se expressou também no rechaço à mídia hegemônica e a partidos – teve papel fundamental em gerar os atos de “vandalismo”.

Precisamos abandonar a postura da esquerda moralista e da esquerda arrogante, que se combinam na preocupação em condenar essas ações espontâneas das massas, mais do que em tentar elaborar alternativas para que seu instinto destrutivo da ordem vigente possa ser canalizado para a transformação social em perspectiva emancipatória.

Maquiavel, nos Discorsi, já dizia que é preciso criar meios para que os conflitos se expressem na ágora e nas instituições – caso contrário, explodirão incontrolavelmente contra elas. É exatamente isso o que temos presenciado nas últimas semanas. A revolta contra as violências sistêmicas cotidianas não têm conseguido se expressar plenamente nem se organizar politicamente ante: (i) o fechamento e a falência das instituições; (ii) a burocratização e conversão à ordem de parte da esquerda; e (iii) a desorganização, desorientação estratégica e déficit criativo nosso, das organizações e movimentos da esquerda combativa. Em consequência, alguns setores só conseguem enxergar a violência espontânea e a revolta “contra tudo e contra todos” como a única saída para suas angústias e desejo de rebelião.

Compreender esses três fatores deve nos levar a reconstruir a estratégia de transformação social, em meio à sua práxis.

Nós, que rejeitamos radicalmente as injustiças do sistema social existente e sonhamos com uma sociedade organizada sobre bases culturais, econômicas e políticas livres e igualitárias, devemos celebrar a rejeição às instituições, bem como os sintomas e possibilidades de libertação subjetiva contidas no combate a símbolos do status quo. Obviamente, é precisamente aí, nesses momentos de crises, que florescem as maiores possibilidades de edificar novas instituições, sob viés emancipatório.

Nós, que há anos tentamos – sem muito sucesso, é necessário admitir – construir alternativas políticas capazes de não recair nos erros do ciclo histórico do petismo (a burocratização, a conciliação pelo alto, a prioridade conferida à disputa de cargos nas instituições como método principal ou até único de acúmulo de forças para a transformação), devemos comemorar o fato de que cresce a rejeição aos partidos da ordem. Assistimos agora a uma desilusão das expectativas socialmente depositadas no “projeto democrático-popular” (do PT, PCdoB, PSB e adjacências) e sua ênfase na ideia de que poder popular se constrói essencialmente pelo frenesi de vencer eleições – a qualquer custo, cada vez mais – e ocupar cargos institucionais.

É verdade que essa frustração e “ressaca” contamina também partidos que permanecem combativos e que jamais se alinharam à estratégia de priorizar as disputas eleitorais (em detrimento das lutas sociais). Porém, vejo mais a comemorar do que a lamentar aí. Trata-se de astúcia histórica do povo, aprendizado da sofrida memória das lutas e das desilusões com os caminhos institucionais. Mesmo para quem – como eu – julga que a esquerda não deve abrir mão de fazer também a disputa eleitoral, é preciso reconhecer que esta deve ser secundarizada. O caminho político para a transformação social deve ser construído sobretudo nas ruas! E não se pode desprezar a gigantesca importância de que amplos setores venham manifestando – por sua prática – acordo com isso. (Sobre esse ponto, leia a concepção de poder popular do B&D).

Por fim, não é apenas pelo rechaço ao sistema, às instituições e à estratégia eleitoralista que cresce a rejeição aos partidos (inclusive aos da esquerda que não abriu mão de seus princípios e projeto estratégico). É também porque boa parte da esquerda combativa não tem sabido sair do gueto, dialogar com os “não-convencidos”, disputar o senso comum e oferecer alternativas de organização com a cara da indignação das ruas.

Para superar essa situação, precisamos, sim, de novas formas de organização e novas linguagens. O desafio, porém, é muito maior. A esquerda precisa ir mais fundo, e repensar o conteúdo estratégico de seu projeto, sendo capaz de responder de forma dinâmica e programática aos grandes e novos desafios contemporâneos, adaptar-se a novas formas de cognição, comunicação e condições produtivas e culturais, e superar diversos vícios e equívocos que carrega em sua prática (sectarismo, vanguardismo, propagandismo…), evitando recair em outros (espontaneísmo, incapacidade de articular bloco contra-hegemônico de lutas…).

Os inocentes da “esquerda Leblon”, porém, já nos lembrava Drummond, preferem ignorar a realidade. Confortam-se em condenar aqueles e aquelas que fogem à verdade dos iluminados ou agem em desacordo com seu mantra. “Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram, mas a areia é quente, e há um óleo suave que eles passam nas costas, e esquecem.” O óleo suave, no caso, são velhos dogmas de algumas organizações.

Quanto a nós, estamos presos à realidade, ao tempo presente, ao mundo presente. Em vez de sucumbir ao niilismo nostálgico ou às vãs esperanças depositadas num futuro abstrato pelo vanguardismo das seitas, preferimos participar do esforço de abrir caminhos para e com o poder popular, na práxis de reflexão, imaginação e tentativa contínua de superação das contradições e limitações que carregamos, em meio às lutas. Pela construção de alternativa consistente e viável de transformação social, capaz de canalizar de modo criativo e emancipatório o turbilhão rebelde de desejos de destruição das violências sociais.

“Os que virão, serão povo. E saber serão, lutando”.

PS: obrigado à Helena Martins, que me fez conhecer o depoimento da ex-funcionária da Toulon; e ao Rodrigo F. de Magalhães, pelo produtivo diálogo sobre este tema, em que pesem nossas divergências. Este texto é influenciado também pelo constante diálogo com o amigo Fernando Nogueira “Sansão”, e pela minha inveterada leitura do Bruno Cava (apesar das discordâncias que também temos, claro).

Que entendemos por Poder Popular?

Publicado em

Segue contribuição do grupo Brasil e Desenvolvimento sobre discussão político-conceitual da mais alta relevância.

No nosso exercício contínuo de reflexão coletiva a partir da práxis das lutas e do estudo e debate teórico para responder às inquietações que dela surgem, periodicamente revisamos e atualizamos a “Carta de Fundamentos” do B&D. Incorporamos a esse documento, hoje, nova versão, com modificação considerável na parte sobre poder popular. Confira aqui. Abaixo, segue nossa compreensão – sempre aberta ao aprendizado para seguir se aperfeiçoando – sobre esse objetivo fundamental que justifica a existência do grupo.

poder popular mulher.

..

.

.

.

Poder popular

“O poder do povo vai criar um mundo novo”

O poder não está sacralizado em leis imutáveis e nem deve ser visto apenas como ferramenta ou meio para o alcance de um dado fim. Para nós, a multiplicação social do poder é o próprio fim: o alargamento de capacidades e práticas de autogoverno e o fortalecimento da organização insurgente e autônoma das/os oprimidas/dos e das/dos exploradas/os, capazes de recriarem o mundo social sobre novas bases cognitivas e pragmáticas, mediante sua luta pela emancipação. A isso chamamos poder popular.

A realização desse objetivo revolucionário fundamental depende do fortalecimento de sujeitos e processos que instaurem rupturas com o caráter alienante e espoliador do sistema político, cultural e produtivo vigente e construam possibilidades reais de sua superação.

A produção do poder popular exige que voltemos os olhos também, portanto, para as limitações, obstáculos e adversários que enfrenta, bem como as estratégias desenvolvidas para suplantá-los.

Esses obstáculos e limitações são de diversas ordens. Em primeiro lugar, observa-se que as estruturas sociais – capitalistas, racistas, colonizadoras, patriarcais, heteronormativas – produzem, de forma sistemática e entrelaçada, exploração e dominação dos mais amplos grupos populacionais. Por conseguinte, os movimentos sociais contra-hegemônicos, por meio dos quais os povos se mobilizam para construir modelos alternativos de sociedade – igualitários, libertários e cooperativos –, têm papel proeminente na luta pelo poder popular.

Em segundo lugar, é necessário levar em conta que o Estado cumpre papel fundamental na reprodução das estruturas citadas – não por acaso, é um dos grandes violadores dos direitos humanos (senão o maior) e criminaliza movimentos sociais sistematicamente. Por isso, deve-se ter em mente que a luta pela radicalização da democracia invariavelmente entra em choque com a institucionalidade estatal e seus aparelhos de repressão violenta e legitimação simbólica, instrumentalizados pelos sistemas de dominação existentes.

A ação direta deve ser valorizada, portanto, como o mecanismo fundamental de construção do poder popular, de forma autônoma com relação ao Estado capitalista, racista, colonizador, patriarcal e heteronormativo; e, por vezes, em clara confrontação com ele, mediante o exercício democrático do direito à resistência. Ação direta não significa apenas, no entanto, desobediência civil e insurreição; também abarca diversas outras situações e formas de atuação mediante as quais comunidades e movimentos desenvolvem e fortalecem seus próprios meios de sociabilidade, organização política, produção cultural e econômica, com autonomia frente ao Estado e aos grupos dominantes contra os quais lutam.

Por outro lado, não se pode ignorar que a institucionalidade estatal é dotada de fraturas internas: existe certa abertura à participação social (ainda que de forma desigual e violentamente apassivada), bem como é possível pressioná-la em alguma medida para conquistar normas legislativas, políticas públicas e sentenças judiciais que eventualmente podem contribuir ao fortalecimento do poder popular. Disputar as contradições do Estado, de diversas maneiras de acordo com a conjuntura de cada momento, pode ter papel decisivo para obter vitórias nas lutas.

Porém, seria um erro superestimar a abertura procedimental da institucionalidade estatal, que ainda é pequena para as amplas massas populares oprimidas, além de bastante limitada nos efeitos concretos que gera. A necessária democratização radical da sociedade, da produção do poder político, não pode ser feita exclusivamente ou prioritariamente, portanto, “por dentro” das instituições. Não basta alargar a participação popular no Estado, embora isso também seja importante.

O fundamental, fazemos questão de repeti-lo, é a construção de poder dos e com os sujeitos coletivos que se organizam desde baixo, em sua práxis criadora e estimuladora de novas compreensões, mecanismos, práticas e cultura política. A disputa da institucionalidade estatal não deve ser feita como fim em si mesmo nem como objetivo estratégico prioritário, mas de modo organicamente vinculado e subordinado ao fortalecimento desse bloco de lutas.

Índios ocupam o Congresso Nacional em 2012. Poder dos Povos em construção na luta!

Índios ocupam o Congresso Nacional, em 2012. Poder dos Povos em construção na luta!

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.