O povo islandês tinha dois caminhos a seguir, diante da forte recessão econômica que atingiu o país: abrir mão de direitos sociais e manter intocada a estrutura econômica da nação (como se tem imposto a países como Grécia, Portugal, Espanha, enfim, ao mundo inteiro); ou proclamar a soberania democrática sobre a economia, a apropriação comum das riquezas produzidas em comum pelo povo, para garantir a todos uma existência digna. Escolheu o segundo, mostrando ao mundo que existe uma alternativa – democrática, inclusiva e transformadora – ao receituário de precarização que costuma se apresentar como o único caminho.
A Islândia nos mostra que a crise econômica é, antes de tudo, uma crise política. Vivemos, no Brasil, em estado permanente de crise, pois somos uma das nações mais desiguais do planeta, enorme parte da nossa população não se apropria de quase nada da riqueza que produz e praticamente não é ouvida na definição dos rumos da nossa economia. A mudança desse cenário de exclusão estrutural, tal como aponta a Islândia, não virá de receituários pré-moldados que reforçam o sistema econômico como mundo separado das necessidades e aspirações sociais, mas da transformação política da economia, da democratização do sistema produtivo e de apropriação de riquezas.
Merece destaque ainda a grande e promissora inovação da forma como a intensa participação popular ocorreu no processo constituinte islandês, conforme apontam Deena Stryker e Daily Kos, no texto “A revolução popular na Islândia”:
“Para escrever a nova constituição, o povo da Islândia elegeu vinte e cinco cidadãos entre 522 adultos que não pertenciam a nenhum partido político, mas recomendados por pelo menos trinta cidadãos. Esse documento não foi obra de um punhado de políticos, mas foi escrito na Internet.
As reuniões dos constituintes foram transmitidas online, e os cidadãos podiam enviar seus comentários e sugestões vendo o documento, que ia tomando forma. A Constituição que eventualmente surgirá desse processo democrático participativo será apresentada ao Parlamento para sua aprovação depois das próximas eleições.”
Um lema e um poema que sintetizam boa parte dos meus planos para 2012.
(A expressão latina que intitula o post era – e é – a motto do Colégio Rio Branco, onde estudei em São Paulo. O poema abaixo, de Rudyard Kipling, foi-me indicado pelo amigo Carlos Augusto de Oliveira há cerca de um ano.)
IF…..
IF you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don’t deal in lies,
Or being hated, don’t give way to hating,
And yet don’t look too good, nor talk too wise:
If you can dream – and not make dreams your master;
If you can think – and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you’ve spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build ‘em up with worn-out tools:
If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breathe a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: ‘Hold on!’
If you can talk with crowds and keep your virtue,
‘ Or walk with Kings – nor lose the common touch,
if neither foes nor loving friends can hurt you,
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds’ worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that’s in it,
And – which is more – you’ll be a Man, my son!
Nos gramados, uma palavra o sintetizava: gênio. Deixo, porém, para os poetas e cronistas esportivos de talento tratarem disso com a elegância e a inventividade compatíveis com o original futebol de Sócrates Brasileiro, o Doutor Sócrates, seja vestindo a camisa do Corinthians, do Botafogo de Ribeirão Preto, do Flamengo, do Santos ou da inesquecível (até para quem não tinha nascido, como eu) Seleção Brasileira de 1982, a Canarinha.
Quero lembrar, aqui, os ensinamentos de Sócrates e seus companheiros de Corinthians sobre o valor inegociável da democracia e a necessidade de alastrá-la para todas as esferas da vida social – em especial, na experiência deles, o espaço de trabalho.
O ideal democrático exige que todas as pessoas tenham o direito de participar de forma igualitária e livre dos processos de deliberação e tomada de decisão sobre as medidas que as afetem.
Votar para os cargos mais altos de dois dos três Poderes formais da República (Executivo e Legislativo) está bem longe de ser suficiente para atender a essa exigência. Não apenas devido a vícios ou desvios do processo eleitoral, mas principalmente porque o poder social a que as pessoas estão submetidas em seu cotidiano vai muito além da Praça dos Três Poderes. A conquista do direito ao voto pelas mulheres – alcançada somente no século XX, é bom lembrar – foi um grande avanço, mas se a nossa sociedade segue estruturada pelo machismo, elas e nós todos ainda temos muito a lutar contra as barreiras erguidas contra a sua liberdade e igualdade: se a mulher vota, mas em casa é submetida a uma relação hierárquica com o marido, sendo ou sentindo-se obrigada a fazer toda ou a maior parte do trabalho doméstico, tal como costuma ocorrer, nossa democracia ainda está longe de ser uma realidade plena. Se a abolição da escravatura foi uma grande conquista, a ser celebrada, a luta contra as estruturas racistas de nossa sociedade não pode ser secundarizada enquanto os presídios seguirem apinhados de população de cor escura, e as universidades, pouquíssimo frequentadas por ela.
Finalmente, se os trabalhadores são excluídos das tomadas de decisão no seu lugar de trabalho, sofrendo apenas as suas consequências (inúmeras vezes, precarizadoras de suas condições), ainda temos muito a caminhar para democratizar a nossa estrutura de produção econômica.
E foi esse o sentido revolucionário do movimento dos jogadores do Corinthians no início da década de 1980, sob a liderança de Sócrates, Casagrande, Wladimir e Zenon, que, no contexto da ditadura, quando os brasileiros sequer votavam para escolher o Presidente, exigiram e conseguiram que as decisões do clube que os afetassem – por exemplo, sobre a concentração e até mesmo contratação de novos jogadores – fossem tomadas com participação decisiva deles. Veja o vídeo abaixo e conheça um pouco da Democracia Corinthiana:
“Jogadores, esses ignorantes, a maioria deles sequer sem o 1º grau completo, tomando as decisões do clube?” É como muita gente reage à demanda de democratizar estruturas do futebol ou de quaisquer outros espaços produtivos (sim, o futebol é, também, isso): afirmam a incapacidade dos trabalhadores para entenderem os temas e tomarem decisões qualificadas. Outro argumento utilizado é que os jogadores – e trabalhadores, em geral - estariam preocupados apenas com demandas corporativas – mais folga, mais liberdade, menos trabalho – que seriam contrárias aos interesses e resultados do clube (ou da empresa, em geral).
A Democracia Corinthiana provou o contrário: os jogadores aboliram a regra despótica da concentração (que os mantinha afastados da família e da convivência social livre, enclausurando-os por dias dentro dos clubes – até hoje é assim), tomavam decisões pelo voto, manifestaram-se politicamente pelas Diretas Já dentro de campo (hoje, a FIFA proíbe manifestações políticas) e foram bicampeões paulistas em 1982-83 (Sócrates foi o artilheiro, em 1983), num time que jogava “por música”, produzindo partidas como a goleada de 5 a 1 contra o Palmeiras no final do 1º turno do campeonato de 1982:
O mais importante, no entanto, não são os bons resultados. “Ser campeão é detalhe”. O fundamental é criar um ambiente de trabalho democrático, em que a participação dos trabalhadores é instrumento de garantia dos seus direitos e expressão de suas ideias e sentimentos sobre a prática – futebolística, no caso – em que participam.
Na última Copa do Mundo, demonstrou-se mais uma vez que, se futebol arte não garante vitórias, um time burocrático e formado por jogadores aplicados e disciplinados tampouco o faz. O futebol jogado com inteligência, talento e criatividade é um valor em si, independentemente do resultado – embora, claro, deva buscar sempre a vitória, e muito provavelmente seja mais apto a garanti-la (vide o Barcelona de hoje!). Da mesma forma, nem democracia nem autoritarismo garantem, por si sós, resultados; porém, a inclusão efetiva dos trabalhadores é um valor em si. A questão é de princípio – e, aliás, tem-se percebido que promove também maior eficiência, vide, por exemplo, as iniciativas (ainda que limitadas) e os livros do empresário Ricardo Semler (v. post “Democracia empresarial” aqui no blog). É preciso democratizar o espaço de trabalho e produção, a família, a escola, a Igreja, a universidade – onde hoje as grandes lutas nesse sentido, no Brasil, são pela paridade entre estudantes, professores e servidores, e por maior abertura à participação social. Foi o ensinamento de Sócrates, que no vídeo acima afirma que a democracia é o futuro de todas as organizações.
A estrutura econômica do futebol movimenta bilhões de reais e euros no mundo, hoje. Produz, ainda, prestígio para alguns dirigentes e jogadores, frequentemente utilizado como capital político. É capaz de promover inclusão e oportunidades, mas também, concentração de renda e poder e condicionamentos nada republicanos à atuação do Estado. Bons resultados eventualmente alcançados por clubes e seleções não devem frear nossa busca por democratizar essa estrutura – dos clubes, da CBF, da FIFA e de todas as instâncias.
Por falar em FIFA, termino citando palavras do Doutor Sócrates no último texto que publicou em vida – ontem, na sua coluna na Carta Capital: “2014 verde“:
Essas acima são algumas questões que por certo estão longe da lista de prioridades do tal comitê organizador, que de tão organizado teve de mudar (?) seu comando nos últimos dias. Imaginei que ele deveria ser dirigido por gente do Estado brasileiro, que coordenasse as inúmeras funções exercidas por diferentes fontes para endereçá-las ao mesmo ponto comum às vésperas do campeonato de futebol. Mas não: seu organograma passa ao largo do poder público e trata tudo como propriedade privada, sem compromisso algum com o povo brasileiro, que, no fim, é quem está bancando a farra toda. Farra essa que pode jogar por terra todas as conquistas da última década, por absoluto distanciamento dos interesses nacionais. Uma inconsequência sem limites das instituições que delas deveriam cuidar.
*Texto postado no blog do B&D no dia do falecimento do Doutor Sócrates.
**Santista apaixonado, mas ainda mais apaixonado pelo futebol arte e sobretudo pela democracia radical pregados e praticados pelo Doutor Sócrates.
PS: não percam a Ode ao Magrão, na qual o Idelber Avelar conclui: “Magrão é nosso Nietzsche, nosso Zaratustra”.